FRASE:

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"Se deres um peixe a um homem, vais alimenta-lo por um dia; se o ensinares a pescar, vais alimenta-lo a vida toda."

(Lao-Tsé, filósofo chinês do séc. IV a.c.)

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

FILME: UM FIO DE ESPERANÇA

Nem tudo está perdido ! Já faz algum tempo, algumas gravadoras conseguiram entender que existe público para filmes que já fizeram sucesso no cinema e se tornaram clássicos.
E, recentemente, começaram a descobrir que no Brasil também existem pessoas que gostariam de voltar a assistir essas antigas produções!
Graças a isso, foi lançado em 2007 nos EUA, e mais recentemente no Brasil, o DVD  com a edição especial de Um Fio de Esperança (The High and The Mighty - EUA, 1954- 147 min), da Paramount Pictures. O filme está em formato widescreen anamórfico (2.55:1), já que foi originalmente filmado em Cinemascope, e vem numa embalagem com dois DVDs, um deles com o filme e o outro com diversos extras: o trailer, o "making of" do filme, curtas sobre o diretor William Wellman, sobre o compositor da trilha sonora premiada Dimitri Tiomkin, sobre a aviação nos anos 50, sobre como foi feita a restauração do filme, e muitos outros.
A história foi a primeira trama do pós-guerra ambientada na maior parte do tempo na cabine de um avião comercial, e eu considero este filme o percursor do gênero, dando origem à Céu de Agonia, Aeroporto e suas sequências e sátiras, incluindo Apertem os Cintos! O Piloto Sumiu!.
O script foi de Ernest Kellog Gann (*1910-+1991), baseado no romance homônimo de sua autoria. Gann foi piloto da American Airlines, convocado para a USAAF (Força Aérea do Exército Americano) na  II Guerra e posteriormente voou pela Matson Airlines, da qual era também um dos sócios, nesta mesma rota mostrada no filme, Honolulu-S. Francisco. A empresa não resistiu à concorrência com a Pan American, mas inspirou a história do romance.
Logo no começo do filme, ficamos sabendo a história de Dan Roman (John Wayne - *1907-+1979), apelidado "Dan assobiador", um veterano piloto que, apesar da experiência, não é comandante, exercendo a função de co-piloto para um aviador mais jovem, Sullivan (Robert Stack). Tudo por conta de um acidente gravíssimo em que se envolveu no passado, com sérias perdas familiares. A graciosa comissária May Holst (Claire Trevor) é também quem recebe e faz o check-in dos passageiros, no balcão da empresa (1).
Para se captar melhor a atmosfera do filme, é preciso vê-lo com olhos da época. Hoje, nada parece mais corriqueiro (e, ultimamente, até enervante) do que viagens aéreas. Mas, nos anos do pós-guerra, viajar de avião era um misto de aventura e charme, e nos EUA, algo ao alcance de pessoas de classe média alta, que contudo, não queriam arcar com as despesas de uma viagem num navio de classe. Eu  já falei sobre o boom das viagens aéreas nos EUA no início da minha postagem FILMES DE SUSPENSE A BORDO DE AVIÕES. Na lista de passageiros, como o filme mostra, vemos pessoas que usaram suas últimas economias para pagar a passagem ao lado de outras, melhores de vida, já acostumados com as viagens aéreas.
O andamento do filme, como nos moldes da época, pode parecer em certos momentos arrastado, e se fosse refeito atualmente, certamente teria diversas cenas encurtadas ou cortadas. A trilha sonora também pode soar dramática demais, mas é outra característica das produções da década de 1950.
Mas, o filme apresenta os elementos básicos que eu falei na citada postagem:  primeiro, uma revelação dos dramas e situações pessoais dos pilotos e de alguns passageiros (neste caso, com alguns flashbacks);  uma pane ou condição insegura; a tensão a bordo e seus efeitos, gerando reações variadas nos protagonistas. E a definição final, afetando a todos de alguma forma.

 Capa da edição especial brasileira.

O filme recebeu seis indicações para o Oscar de 1954, mas venceu apenas o de "melhor trilha sonora para drama ou comédia", premiando o trabalho de Dimitri Tiomkin. A  linda música repetidamente assobiada por Roman/Wayne, conhecida com o mesmo nome original do filme(2) apesar de indicada para "melhor canção", perdeu para  Three Coins in The Fountain, do filme A Fonte dos Desejos. Mas, da mesma forma que a vencedora, tornou-se um sucesso mundial, e foi gravada por diversos intérpretes.
Jan Sterling (*1921-+2004) recebeu da Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood o prêmio de melhor atriz codjuvante, no papel de Sally McKee, uma noiva por correspondência que vai ao encontro do noivo. Um premio que saiu caro, pois conta-se que, para viver a personagem (uma mulher complexada por se achar um tanto passada nos anos), ela teve que raspar as sobrancelhas, e elas não voltaram mais a crescer!

 Jan Sterling: o premio compensou o sacrifício da beleza?
Tudo se passa numa travessia sobre o Oceano Pacífico, na rota Honolulu-S. Francisco. Entre os passageiros, um magnata da aviação, um empresário da indústria farmacêutica, um pescador profissional mal-sucedido que regressa, uma imigrante oriental,  um casal brigado, um casal de turistas cheios de gracinhas, um cientista desiludido, e um homem traído e cheio de rancor.
Os dramas começam com situações envolvendo os passageiros, até que um dos motores pega fogo, ficando fora de ação. Além disso, os tripulantes tem que lidar com um vazamento de combustível e com um erro de cálculo do navegador, e as coisas se complicam. A tensão a bordo vai piorando tanto que até a tripulação acaba entrando em conflito, balançando a escala hierárquica, enquanto decisões críticas tem que ser tomadas.
Finalmente, chega a hora da verdade para aquele punhado de pessoas.
A aeronave usada no filme foi um Douglas DC-4, versão cargueiro militar C-54, comprado como excedente de guerra, remodelado interiormente como avião de passageiros e operado pela Transocean Airlines. Nas cenas externas, o avião foi pilotado por um dos diretores da empresa, amigo de Ernest K. Gann, que quase sofreu um acidente no pouso durante uma tomada, tendo que arremeter, após tocar o solo antes do início da pista.
Dez anos depois, fazendo a rota Honolulu-Los Angeles, em um voo fretado, este mesmo avião, com três tripulantes e seis passageiros, comunicou estar com um dos motores  em chamas e na iminência de um pouso de emergência no Pacífico. Não houve mais contatos e não foram encontrados sobreviventes.
A vida repetiu a ficção da forma mais cruel.
Não restou nem um fio de esperança...
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(1)- Será que era assim mesmo? Algumas empresas aéreas de hoje adorariam fazer isto, para poupar os salários das atendentes!
 
(2) - No CD da trilha sonora, consta como Main Title: Goodbye to Toby  Flashback, Plane Wreck. Mas, em outras gravações, usualmente é citada como The High and The Mighty.

Obs.: John Wayne também foi  co-produtor do filme, juntamente com Robert Fellows.

6 comentários:

  1. Leonel,
    Você como comentarista de filmes clássicos é nota mil. Não assisti esse filme e, confesso, se o tivesse visto disponível em uma locadora, acho que não alugaria por causa do canastrão J. W. Mas, diante do teu comentário com todas essas informações de bastidores e decorrentes, estou pronto para assistí-lo. Obrigado pelo belo texto, JAIR.

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  2. - Se é de aviaçAo, peço licença a Rê e digo: TÔDENTRO - ainda mais sendo recomendado pelo Leonel, apesar de achar que John Wayne fica melhor em lombo de cavalo que num assento de piloto...

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  3. Pô, parece que o velho JW é uma unanimidade em antipatia!
    Eu tinha um professor de história em P.Alegre que dizia que O Álamo só não foi melhor por causa dele!
    Mas, ele fez outros filmes em que era piloto: Flying Tigers e Jet Pilot (Estradas do Inferno) eu me lembro de cara! Acho que tem outros, dos anos 40.
    Mas este filme vale mais pela nostalgia dos tempos em que viajar de avião era "chique"!

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  4. A mídia especializada perdeu você como comentarista porquê? Menino... Esses meus amigos são incríveis, cada um especial numa esfera.

    Pra variar, completo e perfeito o post.

    Beijos.

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  5. Autorização dada prá Bruxo Rudolph! E vou logo avisando: Rubens Ewald Filho que se cuide, pois Leonel tá na área com competência e sem afetação! Já imaginaram fazendo a análise dos indicados ao Oscar 2011??? Tô sentada na primeira fila aguardando... É o Leonel aí minha geeeeente!
    Meu amigo, não tenho a menor idéia em qual telhado ando passeando...rsrs mas uma coisa posso "assegurar": diferentemente de Liz Taylor (linda de viverrrr no papel em "Cat on a Hot Tin Roof")ando cravando minhas garras e agarrando-me à vida como ela é, e não como eu gostaria que fosse um dia.
    Beijuuss n.c.

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  6. Milene, a literatura também está perdendo poetisas e cronistas da melhor qualidade, né?
    "El Brujo" Rudolph é quem sabe!

    Regina, só seria bom porque eu assistiria a pré-estréia de todos os candidatos ao Oscar!
    Você citou um excelente filme, com a rainha Elizabeth e Paul Newman! Nesse filme, ela, mais do que nunca, também é declaradamente felina!

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