FRASE:

FRASE:

"Se deres um peixe a um homem, vais alimenta-lo por um dia; se o ensinares a pescar, vais alimenta-lo a vida toda."

(Lao-Tsé, filósofo chinês do séc. IV a.c.)

quinta-feira, 31 de março de 2011

CINEMA: O VELHO CAUBÓI NOS CÉUS

Quando eu fiz a resenha do filme UM FIO DE ESPERANÇA (The High and the Mighty-1954), meus amigos comentaram  sobre a presença nem sempre agradável do ator-caubói John Wayne, detestado por alguns cinéfilos por representar a si mesmo, ou ser um ator de uma única personagem.
De fato, na maioria de seus filmes, ele é o cara durão,  machão, conservador, que não baixa a crista para ninguém, se faz de difícil para as mulheres, e salva todo o mundo com um certo ar de desprezo e superioridade.
No jargão da crítica cinematográfica, JW era o que se chamava de “canastrão”.
E sua imagem foi associada à figura do típico caubói do oeste americano, em função dos inúmeros filmes em que viveu caubóis.
Entretanto, eu, que sou "fã-nático" dos filmes de aviação, dei uma conferida nos papéis que o velho JW representou neste gênero, e gostaria de compartilhar o resultado dessa pesquisa com vocês. Ai vai:

Filmes de Aviação com John Wayne

Tigres Voadores (1942) – The Flying Tigers 
Personagem: Jim Gordon

O personagem Jim Gordon parece ter sido inspirado no ás Tex Hill, do AVG.

Este filme feito logo após a entrada dos EUA na II Guerra, mostra a ação do American Volunteer Group (AVG), um grupo de aviadores militares que foram desmobilizados e enviados para a China, à guisa de ajuda ao governo de Chiang Kai-Shek, como voluntários civis, para lutarem contra os invasores japoneses, antes da entrada dos EUA na guerra.  Em outras palavras, mercenários que recebiam prêmios em dinheiro por avião japonês abatido.
Lá chegando, formaram um grupo de aviação de caça, equipado com aviões Curtiss P-40 cedidos pelos EUA. Sua brilhante atuação contra os japoneses levou o governo chinês a chama-los Tigres Voadores. JW interpreta o líder do grupo, Jim Gordon, personagem inspirado no piloto do AVG Tex Hill. P&B. Lançado no Brasil em DVD.
Uma curiosidade é que o herói dos quadrinhos americanos Buz Sawyer, um piloto naval, criado por Roy Crane em 1943, foi lançado no Brasil com o nome de “Jim Gordon”, em função do personagem do filme, apesar de nada ter a ver com ele.

Horizonte de Glórias (1951) – Flying Leathernecks
Personagem: USMC Maj Dan Kirby

Em Horizonte de Glórias, JW mais uma vez combate os japoneses.

O filme se passa no Pacífico Sul, durante a II Guerra Mundial. O major Dan Kirby (John Wayne) assume o comando do esquadrão de caças do corpo de fuzileiros navais VMF-247 e não parece satisfeito com o desempenho de seus subordinados. O sentimento é mútuo e há um choque de empatias entre ele e seu melhor piloto e oficial executivo, o capitão Griffin (Robert Ryan). Kirby acha que Griffin, apesar de bom piloto, não tem fibra suficiente para enviar seus homens para o sacrifício.  P&B. Lançado no Brasil em DVD

Geleiras do Inferno (1953) – Island in the Sky
Personagem: Cap Dooley

Desta vez, sua missão é ser salvo.

Um Douglas C-47 cai na vastidão gelada do Labrador. JW é o piloto que mantém vivos e unidos os tripulantes enquantam aguardam um resgate que não sabem se virá. Lindas cenas de sobrevoo de aviões C-47. P&B. Lançado no Brasil em DVD

Um Fio de Esperança (1954) – The High and The Mighty
Personagem: Piloto civil  Dan Roman

Neste suspense dramático, um angustiado piloto enfrenta seus fantasmas.

Este parece ter sido o primeiro filme de suspense dramático ambientado em um avião de passageiros, e JW é Dan Roman, “o assobiador” um angustiado piloto que perdeu toda a família em um acidente e trabalha como co-piloto em uma pequena empresa aérea, nos anos 50. Vários dramas correm em paralelo, até que uma emergência une a todos num mesmo destino. Colorido. Lançado no Brasil em DVD.

Estradas do Inferno (1957) – Jet Pilot 
Personagem: Coronel Shannon, da USAF

Um típico "filme de guerra-fria", produzido por Howard Hughes. Nas cenas aéreas, JW é dublado pelo ás Chuck Yeager.

Neste típico filme de guerra-fria produzido por Howard Hughes, JW é um coronel da força aérea americana que se vê às voltas com uma mulher-piloto soviética (Janet Leigh, mãe de Jamie Lee Curtis) que deserta e voa para os EUA. Porém a coisa acaba evoluindo e ele se casa com ela para evitar sua deportação. E acaba metido numa missão de espionagem, voltando com a sua esposa para a U.R.S.S.! Cor.

Asas de Águia (1957) – The Wings of Eagles
Personagem:Cmte Frank W. "Spig" Wead, da Marinha dos EUA

Apesar deste cartaz ser em preto-e-branco, o filme é colorido.

Baseado na história real de Frank W. "Spig" Wead (JW), comandante da marinha americana e aviador, que defendia a criação da aviação naval. Esta dedicação à marinha acabou por prejudicar sua vida familiar. Contudo, enfrentava a oposição do exército americano, que queria exclusividade sobre o emprego de aviões como arma. Em 1923, com sua equipe, venceu o troféu Schneider, uma competição aérea internacional. Porém, um acidente doméstico o deixou paraplégico e ele passou a fazer roteiros para filmes. Com o início da II Guerra, ele volta à ativa na sua nova função. Neste filme, JW contracena com a polêmica e linda Maureen O'Hara. Cor.

Curiosamente, nos seus filmes de aviação, ele nunca pilotou o caça Mustang P-51, o que seria bem adequado: um caubói pilotar um avião com nome de cavalo!
Assim, o caubói canastrão de cara amarrada também foi um piloto canastrão de cara amarrada. Fora estes, teve também diversos filmes em que representou militares, quase sempre na II Guerra, no teatro do Pacífico (será que tinha alguma coisa contra japoneses?) e ainda fez OS BOINAS VERDES (The Green Berets - 1968), sobre a guerra do Vietnã (ih, também matando gente de olhinhos puxados!).
Decididamente, o velho John não parecia nutrir muita simpatia por comunistas, nem por orientais (dizem que nem por outras etnias também).
Mas marcou uma época!
______________________________________________________________
Acho que fiz o serviço! Mas, se alguém souber de algum outro filme de aviação com JW que eu tenha deixado de fora, por favor, me avise, que eu incluo!

quinta-feira, 24 de março de 2011

HISTÓRIA: A INVENCÍVEL ARMADA DE FELIPE II

Em 1588, numa ambiciosa tentativa de converter a maior parte da Europa ao catolicismo e punir a Inglaterra pela pirataria contra suas colônias, o rei Felipe II da Espanha lançou ao mar a mais poderosa esquadra até então reunida, transportando um exército para invadir a Inglaterra.
A batalha que foi travada nas águas do Canal da Mancha decidiu o futuro da Europa e do mundo.

Antecedentes
Na segunda metade do século XVI, a Espanha governada por Felipe II era um estado político-religioso, onde a igreja católica tinha grande peso. Felipe II reinava sobre Portugal (onde consta como Felipe I), Holanda e Bélgica e sobre diversos reinos da Europa, como Córsega, Nápoles, Sardenha, Milão, Catalunha, Mayorca, Galícia, Valência, Canárias, Aragão, Castela e outros.

Felipe II queria uma Europa católica, conduzida pela Espanha.

Na Espanha e nas nações sob seu domínio, os judeus e protestantes eram perseguidos e as vezes aceitavam até serem “convertidos” ao catolicismo para não morrer nas mãos da Inquisição, uma organização religiosa de repressão que tinha plenos poderes da coroa espanhola e do Vaticano para utilizar os mais bárbaros métodos para conseguir confissões e castigar os não-convertidos, chamados hereges.
Porém, a sua grande rival no domínio dos mares e colonias do mundo, a Inglaterra, era governada por Elizabeth, rainha de orientação protestante que dava refúgio e ajudava aos seguidores desta religião por toda a Europa, notadamente na Holanda, onde havia resistência armada.
Mas a vizinha da Inglaterra, a Escócia, estava sob o reinado da prima de Elizabeth, Mary Stuart, que era católica. Mantinha estreito diálogo com a coroa espanhola e secretamente, planejava alijar Elizabeth do trono da Inglaterra e ocupar seu lugar. Haviam tratados secretos estabelecendo que, após sua morte, a Escócia passaria ao domínio da Espanha. Isto tudo acabaria chegando ao conhecimento de Elizabeth.

Francis Drake
Os navios que transportavam para a Espanha as riquezas e tesouros das colônias do Novo Mundo eram frequentemente alvo dos ataques de piratas e corsários inglêses, o que era motivo de protestos do rei espanhol junto à rainha inglesa. Uma das figuras mais polêmicas desta controvérsia foi Francis Drake, jovem capitão britânico, um dos primeiros a navegar em volta ao mundo. Ele foi enviado pela própria Inglaterra para águas americanas, para atacar e saquear os navios e colonias espanholas. Quando os espanhóis protestaram e apresentaram testemunhos e provas de que ele havia protagonizado os saques, os ingleses agindo politicamente, o responsabilizaram individualmente pelos atos de pirataria e o tornaram proscrito.
Porém, quando ele regressou à Inglaterra com os porões do seu navio abarrotado de ouro dos saques, ganhou imediata anistia, e como a situação com a Espanha havia azedado de vez, foi novamente reconhecido como corsário à serviço da coroa inglesa e acabou recebendo um título de nobreza das mãos da própria Elizabeth, passando a ser citado como Sir Francis Drake e reintegrado à marinha inglesa.

A Morte de Mary Stuart
Enquanto isto, Mary Stuart, rainha da Escócia, enfrentou uma dissidência na sua própria corte e refugiou-se na Inglaterra. Porém, ao chegar, recebeu voz de prisão de sua prima. Foi acusada de conspiração, julgada e decapitada em 8 de fevereiro de 1587.
Isto serviu de pretexto para que seu aliado Felipe II, que já tinha planos de atacar os ingleses, disparasse os preparativos finais para a invasão da Inglaterra.
A Armada
Durante os anos anteriores, havia sido encetado um grande programa de construção de navios. Outros que estavam disponíveis na Espanha e em países sob seu domínio foram reunidos e equipados, inclusive 12 navios portugueses.
Em julho de 1588, foi reunida a esquadra de invasão:
Um total de 130 navios, com 2431 canhões.
Os navios eram:
65 galeões e mercantes adaptados com canhões,
25 cargueiros cheios de cavalos, mulas e provisões,
32 barcos pequenos,
4 galés e
4 galeaças.
A frota transportava 27.500 homens, sendo:
16.000 soldados,
8.000 marujos,
2.000 operários (prisioneiros e escravos) nas galés,
1.500 cavalheiros e outros voluntários.
Esta força naval, mais tarde apelidada ironicamente pelos ingleses The Invincible Armada, começou a partir em 22 de julho de 1588 de La Coruña, costa norte da Espanha, sob o comando de Don Alonso Pérez de Guzman (El Bueno), Duque de Medina-Sidonia, nobre espanhol sem nenhuma experiência naval. Porém, tinha sob suas ordens diversos comandantes experientes e competentes, dentre os quais se sobressaia Don Alonso Martinez de Leiva, talvez o mais hábil capitão naval da Espanha.
Seus navios transportavam, além do pessoal e das armas, todo o apoio logístico necessário para manter uma tropa de 30.000 homens durante pelo menos seis meses. Entre os itens transportados, constavam: 5.000 toneladas de bolacha de marinheiro, 272.000 kg de carne de porco salgada, mais de 150.000 litros de azeite de oliva, e 14.000 barris de vinho.
Além disto, ainda haviam 5.000 pares de calçados e 11.000 pares de sandálias, e material para reparos dos navios e das carroças e equipamentos de apoio transportados.
Acompanhavam as tropas 6 cirurgiões, 6 clínicos, 19 juízes e 50 funcionários administrativos selecionados para estabelecerem as bases do governo na Inglaterra, bem como 146 nobres voluntários, com seus 728 criados. Isso além de 180 sacerdotes, como conselheiros espirituais e confessores, que ajudaram a abençoar todos os homens antes do embarque.
Como reserva, para posterior ocupação da Inglaterra, ainda havia na Holanda uma força terrestre sob o comando do Duque de Parma, com aprox. 30.000 soldados. Eles também traziam munições e provisões adicionais.
O Confronto
Por volta do dia 29, a Armada estava finalmente ao largo de Plymouth. Diz a lenda que Francis Drake, que por esta ocasião comandaria as ações da esquadra inglesa, foi avisado de que a força espanhola estava chegando à Inglaterra enquanto jogava uma partida de boliche. Teria enviado seu imediato para o porto para preparar a partida da esquadra e continuado a jogar, declarando: “Podemos terminar nosso jogo!”


Defeat of the Spanish Armada (Derrota da Armada Espanhola), pintado em 1796 pelo pintor inglês Philip James de Loutherbourg, retrata a batalha travada em 8 de agosto de 1588. Esta obra atualmente encontra-se no National Maritime Museum, da Inglaterra.

A Armada estava a cinquenta milhas de Plymouth. E no decorrer da semana seguinte, os ingleses, sob comando-geral de Lord Charles Howard, travaram dois combates com os espanhóis.
Cabe aqui ressaltar que as diferenças táticas tiveram um papel fundamental no decorrer dos confrontos. Os espanhóis procuravam sempre abordar os inimigos e travar combate direto, visando capturar os seus navios, enquanto os ingleses, que sabiam que este tipo de confronto lhes seria desvantajoso, haviam se preparado para travar a luta a distância, disparando a partir do alcance útil dos seus canhões, e se evadindo ante a aproximação dos navios espanhóis. Conseguiam isto por serem seus barcos mais leves e com mais capacidade de manobra.
Os navios principais e mais bem armados da frota espanhola eram pesados e difíceis de manobrar, com carga total, enquanto os ingleses, apesar de em menor número, eram mais ágeis e sabiam utilizar melhor suas vantagens, comandados por chefes hábeis como Drake, que era o vice-comandante da frota britânica, e Thomas Fleming.
Mas durante esses dois confrontos, apesar de inúmeros acertos, não conseguiram danificar seriamente os grandes barcos de Medina-Sidonia. Os espanhóis, por sua vez, não conseguiram se aproximar o suficiente para abordar os barcos ingleses.
O plano do almirante espanhol previa um encontro para receber munições e provisões das forças do Duque de Parma, em Dunquerque. Mas, os mensageiros enviados não conseguiram contato  e trouxeram a  péssima notícia de que as águas no litoral de Flemish, local previsto para o encontro, eram rasas demais para o calado de seus grandes navios.
Neste impasse, Medina-Sidonia teve que ancorar ao largo de Calais, para reparar seus navios, antes de tentar nova investida.
Os espanhóis sabiam que o engenheiro italiano Giambelli estava trabalhando para os ingleses na preparação de brulotes, barcos incendiários e explosivos que poderiam ser enviados contra sua frota.
Por isto, lançaram sua âncoras presas à bóias, pois caso precisassem sair rapidamente, bastaria cortar as amarras e depois voltar para recuperar as âncoras presas às bóias.
Durante a noite, Howard enviou oito de seus navios mais velhos, despojados de todos os equipamentos, mas carregados com materiais inflamáveis e explosivos, sob o comando dos capitães Young e Prowse, rumo à frota espanhola, aproveitando os ventos e a maré favoráveis, e sob o manto da escuridão. Ao se aproximarem, em rota de colisão, os pilotos e os poucos tripulantes atearam fogo aos barcos, abandonando-os no rumo dos navios ancorados. Isto fez com que os espanhóis cortassem as amarras imediatamente, içando as velas e se espalhando para evitar os brulotes, que começaram a explodir. Nesta confusão, vários navios se abalroaram entre si, causando diversos danos, embora nenhum se incendiasse.
A Batalha de  Gravelines

Ao amanhecer de 8 de agosto, Medina-Sidonia viu parte de sua esquadra dispersa e sob risco de encalhe na costa de Flemish. Destacou então quatro grandes navios para fazer uma linha de defesa, enquanto o restante da esquadra tentava se reagrupar para combater.
Os ingleses atacaram com dois destacamentos, num total de quase 40 navios, sob o comando de Drake, que liderava, e Frobisher.
Outros navios espanhóis vieram em socorro dos seus, mas os ingleses estavam na ofensiva e causaram grandes danos nos navios principais. Três desses grandes navios foram afundados e mais doze seriamente danificados, numa batalha confusa em meio à fumaça. As perdas espanholas neste dia somaram em torno de 600 mortos e 800 feridos.
Pouco antes do anoitecer, Drake abordou e capturou o galeão Rosário com toda a sua equipagem, inclusive o almirante Pedro de Valdez. Este navio carregava elevada quantia para o pagamento dos exércitos do Duque de Parma, na Holanda.
Algumas vulnerabilidades da Armada ficaram visíveis: os mercantes convertidos em vasos de guerra tiveram problemas quando as estruturas começaram a ceder, não suportando os impactos do recuo dos seus próprios canhões. Os vazamentos surgiram, e os os carpinteiros trabalhavam até a exaustão para fazer os reparos. Isto desabilitava a artilharia destes navios. Além disso, o improvisado aumento do poder de fogo da Armada não teve uma correspondencia no número de artilheiros, fazendo com que soldados manejassem os canhões sem o treinamento adequado, diminuindo a eficácia da artilharia.
Após nove horas de ferrenho combate, a chegada do anoitecer e um temporal com ventos muito fortes interromperam as hostilidades.
E então veio o pior: a ventania empurrou os destroçados navios espanhóis de encontro aos bancos de areia, onde muitos encalharam!
Ao amanhecer, tudo parecia perdido, mas os ingleses estavam sem munição e não atacaram. Os ventos mudaram e ajudaram os navios da Armada a se safarem dos bancos de areia.
O comandante inglês enviou alguns barcos à Inglaterra, com pedidos desesperados por mais munição, porém os espanhóis também estavam na mesma situação e com seus navios muito danificados, alguns com a artilharia inoperante. Com poucos disparos de parte à parte, os espanhóis aproveitaram o vento favorável e forçaram a passagem, arremetendo para o norte através do canal, único caminho disponível.
Os ingleses decidiram não persegui-los além das águas inglesas, pois perceberam que eles já estavam derrotados e seus próprios marujos também estavam esgotados e abatidos por ficar tanto tempo em atividade no mar agitado. A disenteria e o tifo infectavam as suas tripulações.

O Desfecho

Os espanhóis, após um conselho de guerra, resolveram trazer sua armada derrotada de volta à Espanha, contornando as Ilhas Britânicas.

 Roteiro da Armada Espanhola (clique para ampliar).

Na costa escocesa, conseguiram comprar algumas provisões de barcos de pesca, mas sua situação era de penúria. As mesmas doenças que vitimavam os ingleses também os afetavam. Havia mais de 3.000 doentes a bordo. Diariamente havia mortes. As provisões estavam acabando e a alimentação teve que ser racionada. Os animais de tração a bordo foram abatidos para alimentação, mas a água estava escassa e era de péssima qualidade, provocando intoxicações nos marujos. Alguns navios muito danificados e com vazamentos requeriam constante bombeamento manual de água para não afundarem, o que esgotava ainda mais as tripulações.
Mas o pior ainda estava por vir: ao largo do cabo Wrath, ventos fortíssimos desmancharam a formação da esquadra e mais de trinta navios desgarrados foram jogados de encontro aos recifes da Escócia e da Irlanda, afundando diversos outros no mar. A galeaça napolitana Girona foi um dos barcos que colidiram com os recifes da Irlanda do Norte. Dos seus 1.300 ocupantes, apenas cinco chegaram à terra! Esses e outros que conseguiram chegar à Escócia foram asilados pelo rei James VI, filho de Mary Stuart.

Esta Cruz de Cavaleiro de Malta foi recuperada dos destroços da galeaça Girona, que bateu nos recifes da Irlanda do Norte em 26 de outubro de 1588. Acredita-se que pertencesse ao capitão do navio, Fabricio Spinola. Atualmente, há habitantes locais que se dedicam exclusivamente à atividade de recuperar objetos e jóias dos navios da Armada naufragados ao longo das costas da Irlanda e da Escócia.
(Foto: National Geographic Magazine) 
 
Consta que apenas 64 navios conseguiram retornar à Espanha! Mais de 20.000 homens pereceram, a grande maioria em naufrágios causados pelas tempestades. Enquanto isto, as perdas inglesas foram mínimas, apenas um navio, além dos oito incendiados e sacrificados, e menos de 100 mortos.
Felipe II, que pensou lutar numa guerra santa sob a bênção de Deus, contra os hereges ingleses, ficou mortificado ao receber as notícias do insucesso da empreitada e da destruição de sua poderosa Armada.
Dizem que retirou-se para meditação e ficou longo tempo deprimido, sem receber ninguém. Sob o enfoque de sua obstinada fé religiosa, ficava ainda mais difícil aceitar a fragorosa e total derrota, principalmente levando-se em conta que os elementos naturais tiveram papel fundamental na destruição da Invencível Armada. 
Na Espanha, correram rumores que o insucesso fora um castigo divino pela conduta devassa do rei, que apesar de devoto, mantinha casos extraconjugais. 
Mais tarde, a esquadra espanhola foi reconstruída parcialmente e ainda naquele mesmo século houveram outras tentativas frustradas de submeter a Inglaterra, antes do declínio do poderio naval luso-espanhol, que  aos poucos perdeu seu lugar para os britânicos.
Mas, para os perseguidos religiosos da Europa, este episódio foi tomado como um sinal claro, mostrando de que lado estava Deus...

Análise:
Embora a operação tenha sido planejada de forma bastante minuciosa e aparentemente houvesse recursos materiais para leva-la a cabo, nem todos os fatores envolvidos puderam ser avaliados.
A conversão de navios mercantes em vasos de guerra foi uma experiência mal-sucedida, que comprometeu o desempenho da esquadra, limitando seu poder de fogo, no momento crucial da batalha.
Artilheiros experientes não são feitos da noite para o dia, e  o aumento do número de canhões da esquadra criou uma situação em que soldados regulares passaram à condição de artilheiros improvisados e inexperientes, sem a necessária eficácia.
As táticas consagradas pela marinha espanhola de abordagem e captura dos barcos inimigos se revelou inadequada, pois os ingleses, com navios mais manobráveis, conseguiram evita-las, recusando o combate corpo-a-corpo, a não ser quando estavam em vantagem.
O levantamento do teatro de operações também deixou muito a desejar, pois o ponto de encontro com o exército de Parma se revelou um local inadequado para atracar, devido ao calado dos navios totalmente carregados.
As condições meteorológicas, fundamentais para a operação de veleiros, teriam que ser conhecidas e consideradas, pois afetavam até a viabilidade da ação.
Fora isto, as condições de higiene e saúde existentes nos navios daquela época eram sabidamente insalubres, e comprometiam quaisquer operações que implicassem na permanência prolongada a bordo.
Possivelmente, todos esses fatores negativos concorreram para neutralizar a superioridade numérica da Armada e causar o seu insucesso.
Referências:
Wikipédia: Francis Drake, Mary Stuart, Felipe II
Priceless Relics of the Spanish Armada (National Geographic, June 1969)
The World of Elizabeth I (National Geographic, November 1968)
Notas:
1 - Este é um assunto que me fascina desde criança, quando li numa revista em quadrinhos uma história baseada nos feitos de Sir Francis Drake, que falava do confronto com a Invencível Armada. 


2 - As datas citadas aqui estão conforme o calendário gregoriano, já usado na época pela Espanha. Algumas obras podem divergir, por citarem as datas no calendário juliano, ainda usado pelos ingleses naquela época. Neste caso, as datas estariam 10 dias mais cedo.

quarta-feira, 23 de março de 2011

ADEUS, LIZ

Minha querida Elizabeth Taylor passou para outra dimensão.
Segundo foi informado ao jornal Washington Post por sua agente de relações-públicas, Sally Morrison, Liz faleceu ontem no Cedars-Sinai Hospital, em Los Angeles, aos 79 anos, devido à insuficiência cardíaca congestiva.

Elizabeth Taylor (27 Fevereiro de 1932 - 22 Março de 2011)

Deixa quatro filhos, dez netos e quatro bisnetos, além de uma legião de fãs, onde eu estou incluído.
Sobre ela e sua carreira cinematográfica eu já falei na minha postagem ABOBRINHAS SOBRE A MAIS BELA, de 11 de agosto de 2010.
 
Adeus, Liz!

sábado, 19 de março de 2011

ENTRANDO NO ESQUEMA...MEME LITERÁRIO

Eu já falei esta semana mesmo, num comentário para a Milene que "não sou muito chegado a questionários, pois nem sempre as perguntas são as certas..."

Mas, não é que a Aymée Lucass (Os InVerSos dEnTROoo De MiM) me botou nessa?


Segundo consta, aceitando o esquema, eu teria que responder às perguntinhas e atender às solicitações do selo acima!

Então lá vai:

1 -  Existe um livro que você leria muitas e muitas vezes sem se cansar? Qual?

Não! Ainda não achei um livro que eu leria muitas vezes sem me cansar. Entretanto, eu gosto de reler trechos de livros, para reavivar passagens que ficaram meio apagadas na memória.

2 -  Se você pudesse escolher apenas um livro para ler o resto de sua vida, qual escolheria?

Pô! Apenas um livro para ler o resto da vida? Eu escolheria talvez Ten Faces of the Universe (nunca achei traduzido), de Fred Hoyle, que tem diversas visões do nosso universo, como por exemplo, a dos matemáticos, a dos físicos, a visão teológica e outras, e apresenta ainda alternativas um tanto diferentes das consagradas pela ciência convencional para explicar certos fenômenos. O livro não é um "tijolão", mas em função da amplitude do assunto, e das perspectivas que ele abre, ficamos com muita coisa para pensar! Outra alternativa seria a Bíblia, que também tem muita coisa para se ler e pensar...Aliás, esta pergunta me fez lembrar de um filme recente que assisti, chamado O Livro de Eli!

3 - Indique um livro para que os outros possam ler! 

"Os outros" engloba uma grande variedade de pessoas, cada uma com seu gosto. Então tenho que escolher um bom livro (na minha opinião) e cujo assunto seja de interesse geral. Eu indicaria Esta Noite a Liberdade, de Dominique Lapierre e Larry Collins, um livro muito bem pesquisado, que nos leva para a Índia, logo após a II Guerra Mundial, prestes a conquistar sua independência, nos mostra a atmosfera caótica reinante no país e as circunstâncias que cercaram o assassinato do grande líder pacifista Mohandas Karamchand Gandhi, conhecido como o Mahatma Gandhi.

4 - Indique 10 blogs para responder este Meme.

Me perdoem, mas esta eu vou passar! Falta-me coragem para "passar esssa bola" adiante. Assim, parece uma corrente, e eu sou o maior quebrador de correntes da Web! Sorry!

5 - Linke o blog que te indicou.

Isto eu já fiz, lá no início da postagem (segundo parágrafo)!
Encerrando o meu depoimento, nada mais disse nem me foi perguntado...

Byyye!

terça-feira, 15 de março de 2011

TROCANDO EM MIÚDOS: ESCALA RICHTER

Às vezes, eu tento explicar uma coisa de forma "acessível". Acabo omitindo ou confundindo as coisas ou complicando demais e me tornando repetitivo. Depois, tenho que "enxugar" o texto. Mas, desta, vez, vou tentar ser direto.
Nesses dias temos visto diariamente nos noticiários as tristes notícias vindas do Japão, onde na sexta-feira, 11 de março de 2011, um terremoto considerado o mais violento em 140 anos provocou como efeito colateral um tsunâmi, ocasionando um número crescente de vítimas confirmadas. 
Uma das coisas mais comentadas no noticiário foi a magnitude deste abalo sísmico.
As medições apontaram para um valor de 8.9 na Escala Richter. Mas o terremoto principal foi seguido por outros abalos secundários, tendo o desta segunda-feira 13 de março, atingido 6.2 na Escala Richter. Mas, o que significam esses números?
A escala Richter é comparativa. Foi criada em 1935 pelo americano Charles F. Richter. Os terremotos são medidos por aparelhos chamados sismógrafos, que traçam sobre uma bobina de papel graduado a intensidade dos abalos.

O sismógrafo registra na bobina as vibrações causadas pelos abalos sísmicos.

Na escala Richter, cada graduação corresponde em magnitude à uma potência de 10. Em um gráfico, o eixo dos X é representado pelas unidades da escala Richter e o eixo dos Y é o resultado da projeção de X sobre uma curva exponencial de base 10.
Trocando em miúdos, esta tabela deve esclarecer o significado real da escala Richter!
Valor na Escala Richter
Valor de Y numa curva exponencial de base 10
Magnitude
Resultante
0
100
1
1
101
10
2
102
100
3
103
1000
4
104
10000
5
105
100000
6
106
1000000
7
107
10000000
8
108
100000000
9
109
1000000000

Como podemos ver, se um terremoto B é um grau acima de um terremoto A, na escala Richter, isto significa que B é dez vezes mais forte que A.
O quadro abaixo, apresentado pelo professor EVERTON LIMA, no site Portal Impacto, mostra a classificação dos terremotos em função de seus efeitos físicos:

(Clique para ampliar.)
Quem quiser uma explicação mais extensa sobre abalos sísmicos em linguagem acessível, pode acessar o site Portal Impacto em: 
 

sábado, 12 de março de 2011

RECORDANDO: A(s) PRIMEIRA(s) PROFESSORA(s)

À todas aquelas que assumiram a mais nobre das missões.


Na minha época de menino, na Porto Alegre da década de 1950, só se entrava para a escola com 7 anos completos.
Mas, eu, acho que desde os 4 anos, vivia chateando minhas queridas irmãs, pedindo que lessem para mim as histórias em quadrinhos do Pato Donald e do camundongo Mickey, meus primeiros ídolos.  Na hora do almoço, era infalível: tinha que ter uma revistinha como acompanhamento da refeição!
Minha irmã mais velha, com 15 anos a mais do que eu, era uma espécie de tutora e teve uma influência fundamental na minha vida. Quando completei 6 anos, ela, em função da minha ansiedade em aprender a ler e como uma preparação para a escola que viria no ano seguinte, me apresentou formalmente às letras e números. Eu achei ótimo, pois assim pude começar a ler sem ajuda de ninguém as revistinhas de que eu tanto gostava. Mais tarde, as "vítimas" seriam as revistas Seleções do Reader's Digest, que ela comprava todo o mês.
Finalmente, com 7 anos, lá fui eu, rumo à Escola Paroquial Nossa Senhora Auxiliadora, que ficava no início da rua Silva Jardim, no bairro Auxiliadora, e dava os fundos para a Igreja N.S. Auxiliadora. O diretor de tudo era o vigário Leopoldo, um padre alto e de cabelos já totalmente brancos, que parecia sempre bem-humorado e tinha uma paciência infinita com as presepadas que os moleques maiores aprontavam. Ele  celebrou meu batizado, ministrou a minha primeira comunhão e casou minha irmã mais velha, antes de morrer atropelado por um caminhão sem freios, enquanto contemplava as obras da sua nova igreja.
Nosso uniforme era uma calça azul-marinho e uma camisa branca com listras azuis muito finas, e sapatos pretos, com meias brancas. No distintivo sobre o bolso da camisa ficavam as letras: E.P. (em cima) N.S.Auxiliadora (embaixo). Mais abaixo, depois do ponto final do bonde, ficava a uma escola publica. Naquela época, as escolas públicas primárias eram chamadas de Grupos Escolares. E aquela era o Grupo Escolar Visconde de Pelotas. As crianças usavam um guarda-pó branco e tinham a inscrição no braço: G.E. V.P. Os garotos de lá, quando cruzavam com o pessoal da minha escola, começavam logo a gozação, por causa do “E.P.”, gritando: “Esqueleto perfumado!”. Até minha irmã, que tinha estudado naquela escola, me dar a dica de que eles também tinham um apelido:  "vaca podre", por causa do “V.P.”! E assim, começamos a revidar os xingamentos!
Mas, na minha escola, nossa primeira professora para todas as matérias era a Dona Ferminda, uma senhora magra e séria, com cabelos pretos já meio grisalhos e uns óculos de lentes retangulares, sem aros. Confesso que dava um certo receio de encarar o seu olhar penetrante. Depois, fiquei sabendo que ela fora também professora das minhas irmãs.
Quando terminava de tocar a sineta para o início das aulas, cada aluno ficava de pé, perfilado ao lado de sua carteira, como uma tropa militar, até a entrada da professora, que então nos cumprimentava e mandava sentar. Quem chegasse atrasado, levava falta e ficava do lado de fora, aguardando o próximo intervalo! Sem bochincho! No final da aula, o mesmo ritual: de pé, perfilados, até a saída da professora!  Bons tempos, aqueles!
Desde o início, vimos que ela não era de brincadeiras. Como uma Rudy Giuliani portoalegrense, sua política era de tolerância zero! Não admitia nenhuma espécie de conversa durante as aulas, nem alunos distraídos, olhando para os lados enquanto ela falava!
Tinha olhos de águia, e ouvidos de morcego: se pegasse algum incauto conversando, sua paciência se esgotava rapidinho! Ela apontava o infeliz e bradava: “ Fulano, sai do banco!” o aluno levantava, saia para o corredor entre as carteiras enquanto ela completava: “Venha cá!”.
Às vezes, ela ia buscar o moleque pelo meio do caminho e, segurando-o pelos braços colados ao corpo, dava-lhe a sua famosa sacudida, como se estivesse exorcizando algum demônio! Segundo ela dizia, "uma boa sacudida faz um beeem para alunos distraídos..." Depois, colocava-o de cara para o quadro negro, onde ficaria até ela achar que a mensagem tinha sido captada!
Nunca ouvi falar que alguém discutisse os seus métodos disciplinares! Acho que ainda não tinha aparecido aquele tal de Piaget!
Enquanto isso, ficávamos recitando repetidamente as tabuadas, ou as combinações de consoantes e vogais. A entonação era musical, parecendo uma cantiga sacra: 7 X 7... 49!, 7 X 8...56!, 7 X 9...63!  Ou: B com A... BÁ!, B com E...BÊ!, B com I...BI!
Tudo sob a regência da nossa carrancuda e atenta maestra.
Sua dedicação ao ensino parecia ser integral, mas seu humor parecia sempre meio azedo.
Isto eu pensava, até ao dia da última entrega dos boletins, ao final do ano. Quando chamaram meu nome, eu fui à frente, recebi meu boletim e já ia saindo de fininho, mas ela me chamou e disse: “ Espera, Leonel! Quero apertar a tua mão!” Então, pela primeira vez, vi aquele rosto cansado se iluminar em um lindo sorriso, enquanto ela apertava com força minha mão entre as suas, me dando parabéns pelo 1° lugar!
Hoje, recordo com saudade minha irmã, que amaciou o meu caminho para as letras, e aquela dedicada e honesta senhora que dedicou grande parte da sua vida à nobre tarefa de ensinar crianças a se tornarem pessoas de bem, como ela própria era...
Seja onde estiverem, minhas queridas, estejam em paz...

sexta-feira, 11 de março de 2011

AGRADECIMENTOS!

Há três dias, atrás fui surpreendido ao ver na "Minha Lista de Blogs", uma postagem dirigida...a mim!
Quase caí duro ao ler as lindas palavras com que fui homenageado pela Sandra, editora do blog (clique)  DA JANELA DO GARDEN PLACE. Tanto que só agora me liguei em postar o devido agradecimento!

 Uma guria de bem com a vida!

Eu cheguei ao blog dela bem recentemente, levado até lá por uma postagem do símio mais sapiente da Web, o Xipan Zéca, avatar do super-herói Tatto, outro cara "arretado", como diriam os baianos.
Pois na postagem (clique)  O MACACO INDICA DE NÚMERO QUATRO, esse atuante membro da blogsfera indicava quatro blogs que na sua opinião, mereciam ser visitados. Todos na mosca! Vai indicar bem assim na selva, neto do General Urko! (Viu como eu confiro mesmo? Chute não cola comigo!)
Xipan Zéca: Vai indicar bem assim lá na selva, sô!

Mas, ao chegar ao DA JANELA DO GARDEN PLACE, percebi logo a imagem de um por-do-sol que me pareceu familiar e que depois confirmei ser mesmo sobre o Guaíba, o rio que virou estuário e que hoje é um lago que banha minha querida Porto Alegre.
Então, entrei logo no clima do GARDEN PLACE, um blog bem humorado na maior parte do tempo, mas que às vezes também tem lugar para coisas sérias e melancólicas.
E a simpática dona do campinho, "uma guria de bem com a vida" também encontrou afinidade com alguns dos meus comentários e postagens.
Muito obrigado, Sandra, para mim é uma honra merecer sua amizade!
Me sinto como o soldado Ryan no final do filme, quando lhe falaram: "Faça por merecer!"
Farei o possível!

terça-feira, 8 de março de 2011

CINEMA: A NAMORADINHA DA AMÉRICA

Hoje, Dia Internacional da Mulher (para mim, mulher não tem um dia, mas todos), vamos falar de uma que foi marcante na música e no cinema. Bem antes de Regina Duarte se tornar a namoradinha do Brasil, alguns foram buscar sua mulher ideal na namoradinha da América, DORIS DAY.

 Doris, muito jovem, já acumulava dois casamentos e um filho.
Nascida em Cincinnati, Ohio, em 3 de abril de...1922 (segundo a Wikipédia), ou 1924, segundo a maioria dos fã-clubes, a cantora e atriz americana Doris Mary Ann von Kappelhoff tornou-se inesquecível em comédias como Confidências À Meia-Noite (Pillow Talk - 1959), Volta, Meu Amor (Lover Come Back - 1961) e A Espiã de Calcinhas de Renda (Glass Bottom Boat - 1966), onde era sempre a mocinha de nariz arrebitado, graciosa, ingênua e cheia de boas intenções, que acabava sendo assediada por seus maliciosos parceiros Rock Hudson ou Rod Taylor !
Isto lhe valeu a falsa fama de intocável e o duvidoso apelido de “a eterna virgem”, apesar de ter sido casada quatro vezes. O humorista Groucho Marx chegou a dizer: “Conheci Doris Day quando ela ainda não era virgem”!
Mas Doris também soube atuar em filmes dramáticos como Ama-me ou Esquece-me (Love or Leave Me - 1955) e suspenses como Julie ( Julie – 1956), O Homem Que Sabia Demais (The Man Who Knew Too Much – 1957) e A Teia de Renda Negra ( Midnight Lace - 1960), num total de 45 filmes da sua carreira! Teve também um programa de TV, o Doris Day Show, apresentado nos EUA de 1968 a 1973 , tendo alguns episódios aparecido na TV brasileira, nos anos 70.
Quando foi contratada pela Metro Goldwyn-Mayer para o filme Julie, recebeu uma inusitada homenagem: na abertura do filme, o leão da Metro apareceu rosnando...de topete na juba, imitando o penteado da estrela!


Doris no auge da carreira: seu topete influenciou até o leão da Metro!
 
Doris começou sua carreira muito jovem, em Chicago, em 1940, cantando na banda do irmão do ator Bing Crosby, Bob. Mas logo se transferiu para a Banda de Les Brown. Aos 18 anos, casou-se com o trombonista Al Jordan, de outra banda. Foi com ele que Doris teve seu único filho Terry, falecido em 2004. Este casamento durou pouco mais de um ano. O segundo, com outro músico, o saxofonista George Weidler, em 1943, durou menos ainda!
Em 1948, já tendo feito aparições anônimas em três filmes, foi introduzida pelo compositor Sammy Cahnn para um teste na Warner Brothers, sendo aprovada para o papel de uma cantora no filme Romance em Alto Mar (Romance on the High Seas). E assim, começou sua longa carreira cinematográfica.
Fora das telas, sua linda voz interpretou muitos sucessos, como as melodias The Very Thought of You, Softly As I Leave You, Stardust, Secret Love,Tea For Two, Pillow Talk e muitas e muitas outras (mais de 600!), distribuidas em seus aproximadamente 50 álbuns e compilações, e outros tantos singles!

 Doris (d) em 2010, na inauguração de um pavilhão com seu nome no Laurel Canyon Dog Park, um parque para passeios com cães, em Los Angeles.

A linda garota que começou como vocalista de bandas dos anos 1940 atualmente é uma senhora octogenária que vive no feliz anonimato com seus cães  de estimação em Carmel, na Califórnia, dedica-se à causa de proteção aos animais, e para isto criou uma fundação, a Doris Day Pet Foundation, que atua em diversos estados americanos.

quinta-feira, 3 de março de 2011

FILME: O CISNE NEGRO

Eu me considero um "arqueologista" de filmes. Gosto mesmo é de desenterrar aquelas velharias dos anos 50/60 e não costumo comentar filmes com menos de 10 anos! Mas, estou abrindo uma exceção! 
Um drama atual sobre integrantes de um grupo de balé clássico não parece muito a minha praia, mas atendendo à sugestão de uma amiga, assisti e aqui estou comentando O Cisne Negro (Black Swan – EUA – 2010 – 108 min.), e tenho que admitir que este filme mereceu de fato as indicações, prêmios e elogios que recebeu pelo mundo a fora.
Eu estava preparado para uma história lenta e cheia de detalhes técnicos que só interessariam a quem é do ramo, mas trata-se de um excelente espetáculo, com doses bem equilibradas de suspense, terror e drama. Para mim, particularmente ótimo é o andamento, pois em momento algum me senti entediado, e sempre tem algo a acontecer.
O filme tem a direção de Darren Aronofsky e mostra a determinação da ingênua e perturbada bailarina clássica Nina Sayers (Natalie Portman, em grande atuação) na sua luta para conseguir o posto de personagem principal numa companhia novaiorquina de balé, para a montagem da peça O Lago dos Cisnes, de Tchaikovsky

 Nina Sayers (Natalie Portman): obcecada pela perfeição, mas cheia de grilos e xiliques. Portman mereceu o Oscar e os outros prêmios que recebeu.

Nesta peça, um certo príncipe Siegfried conhece a jovem Odette, que sob a ação do encanto de um bruxo, toma a forma de cisne durante o dia, só voltando a ser mulher à noite. Para quebrar o encanto, ela terá que conquistar o príncipe. Porém, se ele a trair, ela será um cisne para sempre. Mas, então entra na história outra mulher-cisne, Odile, mandada pelo bruxo para atrapalhar tudo. No balé, elas são o cisne branco e o cisne negro, uma alegoria ao bem e o mal, e disputam o coração do príncipe, que acaba se confundindo e traindo Odette.
Nina pretende representar ambos os cisnes, o bom e o mau. Ela busca a perfeição na sua interpretação, mas o diretor do balé, o arrogante Thomas Leroy (Vincent Cassel) acha que ela não é expontânea o suficiente. E ainda tem outra aspirante ao posto, Lily (Mila Kunis), tão decidida quanto ela a ser a estrela.
Nesta disputa, parece valer de tudo.
Para o diretor do balé, vale usar a escolha da protagonista como forma de barganha para obter favores sexuais das candidatas.
Para Lily, que também almeja o papel, vale se fazer de amiga, ou mesmo de amante, fofocar e até embebedar e drogar a competidora para tira-la do páreo. E, de quebra, ainda transar com o diretor.

O diretor do balé Thomas Leroy (V.Cassel) assediando Nina (N.Portman): pra ser a bailarina principal, tem que rebolar!

A ex-estrela destronada, a veterana e desbocada bailarina Beth McIntyre (Wynona Ryder), inconformada com sua aposentadoria forçada, despeja o seu vasto repertório de ofensas contra sua substituta Nina, a quem deseja todo o insucesso do mundo!
E, para completar, Nina ainda tem que aturar as perversões de sua própria mãe, a ex-bailarina desequilibrada Erica (Barbara Hershey), que quer interferir na sua vida.
Toda essa combinação de fatores acaba por causar uma tremenda confusão na cabeça da pobre Nina, que já não consegue mais distinguir entre suas alucinações e a realidade.
Em determinados momentos, a obsessão pela sua personagem chega ao ponto dela sentir crescerem penas de cisne pelo seu corpo, enquanto seus pés tomam a mesma forma que as patas da ave, numa assustadora metamorfose.
E, como na peça de Tchaikovsky, tudo se encaminha para um final trágico e surpreendente.
A magnífica atuação de Natalie Portman neste filme lhe valeu o Oscar 2010 da Academia de Cinema como Melhor Atriz, além do Globo de Ouro pelo mesmo papel. Também foi premiada pela Associação dos Críticos de Cinema e pelo Screen Actor's Guild Awards, além de receber vários outros prêmios, de diversas associações de cinema dos EUA e do exterior.
Quanto ao filme, apesar de ter recebido mais quatro indicações para o Oscar, não foi vencedor em nenhuma outra. Porém, recebeu o Globo de Ouro como Melhor Filme na Categoria Drama, Melhor Direção, e Melhor Atriz Coadjuvante para Mila Kunis, e foi premiadíssimo por diversos associações e órgãos do cinema americano e mundial.
Valeu a pena assistir!

terça-feira, 1 de março de 2011

O MONSTRO


O monstro está à espreita...
Tento impedir que o medo me domine, empunhando a arma com firmeza...
Ela deveria me dar segurança,
Mas não me sinto seguro...
Lá fora, não escuto nenhum ruído que me indique de onde ele virá...
Meu olhar prescruta as sombras, examinando as áreas de penumbra...
Mesmo apertando os olhos, não consigo distinguir o menor traço da sua presença...
Mas, um pressentimento me faz estremecer...
Mesmo sem vê-lo ou ouvi-lo, eu sinto a iminência de seu ataque!
Tardiamente, começo a perceber então algo que eu tinha medo até de pensar...
Não adianta empunhar armas nem se postar em guarda diante da entrada...
Porque o monstro não virá por aí...
Ele já está dentro!
Nada pode me salvar!
A escuridão onde ele se esconde não está lá fora, mas aqui dentro...
Não apenas dentro de meu abrigo, mas nos recantos sombrios da minha própria mente!
Mas, como ele entrou aí, se estive sempre em guarda para impedir sua entrada?
Na realidade, ele nunca entrou, mas sempre esteve aí...
Ele já nasceu comigo, e conviveu comigo em todos os meus momentos mais íntimos...
Sentiu comigo os prazeres e as dores da existência...
Aprendeu junto comigo sobre as sensações do mundo...
Sabe tudo sobre mim, conhece bem a minha natureza e as minhas fraquezas...
Pode prever minhas ações, reações e pensamentos...
Sua natureza é selvagem e irracional...
Ele não tem ódios, amores nem sentimentos como piedade ou medo!
Toda a sua energia está canalizada para atingir seu objetivo a qualquer preço,
Até mesmo à custa da aniquilação de outros ou de si mesmo...
Se tivesse olhos, seriam frios e inexpressivos como os de um tubarão...
Se me encarasse, eu não veria na sua face qualquer emoção...
Ele faz apenas o que seus instintos desenfreados lhe dizem...
Sua natureza é inconsequente...
Para ele, matar pode ser apenas mais uma etapa na sua busca...
Como pude conviver tanto tempo com ele sem me aperceber da sua presença?
Como pode ele ter convivido tanto tempo comigo sem criar nenhum laço de afinidade?
Quando me dominar, serei exatamente como ele...
Não sentirei qualquer piedade diante da dor e do desespero...
Tampouco me importarei com a agonia das vítimas...
Só o meu próprio fim poderá me libertar dele...
Agora, eu já posso senti-lo chegando...
Terei forças para usar a arma...?

Esta divagação foi inspirada no filme O Planeta Proibido, onde uma expedição científica interplanetária chega a um planeta deserto. Lá, encontram instalações que foram construídas por uma civilização extinta. Entre os artefatos encontrados, existe uma máquina que tem a capacidade de captar, amplificar e projetar a energia do cérebro, ocasionando efeitos físicos em qualquer lugar do planeta. Porém, ao usa-la, o cientista não percebe que a máquina processa também os componentes da psiquê humana, inclusive o ID, componente instintivo, amoral e selvagem que existe no subconsciente de todos nós, e que uma vez libertado, se torna um monstro que fará tudo para satisfazer seus instintos básicos, destruindo quem se colocar no seu caminho.
Eu assisti ao filme quando tinha 12 anos, e a a história me impressionou bastante, se tornando uma referência para mim, no gênero.

Eu já fiz referência a este filme em duas postagens:
e