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"Se deres um peixe a um homem, vais alimenta-lo por um dia; se o ensinares a pescar, vais alimenta-lo a vida toda."

(Lao-Tsé, filósofo chinês do séc. IV a.c.)

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sábado, 16 de julho de 2011

HISTÓRIA: SUBMARINOS ALEMÃES ATACAM!

Como nasci logo após o fim da II Guerra Mundial, me criei ouvindo meu pai lendo em voz alta para minha mãe e para mim relatos sobre fatos do conflito.
Ao que parece a guerra marcou bastante os que conviveram com ela, mesmo com um envolvimento menor por parte do Brasil.
Alegadamente, o principal motivo da entrada do Brasil na guerra foram os ataques de submarinos do eixo contra navios brasileiros.
Quando criança, eu ouvia adultos comentando que provavelmente quem tinha afundado nossos navios teriam sido os americanos, para forçar o Brasil a se posicionar ao lado dos aliados.
-"Vai alguém lá no meio do mar saber de quem era o submarino? Ainda mais à noite! Teve navio que não escapou ninguém pra contar a história!” - Resmungava um tio meu, desconfiado.

E eu cresci com essa dúvida, apesar de mais tarde ficar sabendo dos submarinos alemães afundados na costa brasileira e até tripulantes sendo capturados.
O almirantado alemão, onde ficavam os arquivos das operações da frota de submarinos na II Guerra, estava no lado oriental de Berlim, e esteve durante os anos da Guerra Fria em poder do governo da República Democrática Alemã, de regime socialista e aliada da União Soviética. Devido ao clima de antagonismo, o governo da Alemanha Oriental não compartilhava informações com as nações ocidentais. E, do lado de lá do muro, parece que tudo era restrito e reservado.
Após a queda do muro de Berlim, da reunificação da Alemanha e do surgimento e crescimento da internet, novos detalhes vieram à tona.
Finalmente, os pesquisadores da história naval puderam ter acesso aos arquivos do almirantado e o admirável apreço que os alemães sempre tiveram pelos registros históricos permitiu que muita coisa fosse esclarecida.
Com base num excelente levantamento feito pelo Gen da reserva Darcy Lázaro (FEB)(*) e nos dados do site U-BOAT.NET, pude ter a visão geral dos acontecimentos envolvendo nossos navios nos anos de 1942 a 1944.
O Brasil declarou guerra oficialmente à Alemanha e à Itália em 22 de agosto de 1942, quando já se contabilizavam as mortes de 607 brasileiros, em ataques de submarinos.
Porém antes mesmo da declaração de guerra, o Brasil permitiu a utilização de bases aéreas costeiras por aviões de patrulha da  marinha americana, que operaram a partir de  aeródromos em Natal, Fernando de Noronha, Recife e outros.

Os submarinos alemães do tipo IXC, maiores e de longo curso, eram os mais frequentes nas costas brasileiras. Com uma autonomia de 13.450 milhas náuticas a 10 nós, tinham um deslocamento de 1.120 t (superfície) e 1.232 t (submerso). Sua tripulação típica era de 48 a 56 homens e levavam 22 torpedos, que podiam ser disparados por 6 tubos, 4 na proa e 2 na popa. (Clique p/ampliar)

Nada menos de 21 submarinos alemães e 2 italianos participaram de ações ofensivas contra navios brasileiros. Os submarinos alemães que operaram na costa brasileira eram do tipo IXC (nove-c), maior e com maior autonomia, mas na costa americana e no Caribe, também surgiam os do tipo VIIC (sete-c), menores e com alcance mais curto.
Esses submarinos, no período entre fevereiro de 1942 e julho de 1944, afundaram nada menos de 35 navios brasileiros! Os primeiros foram no Caribe e em águas dos EUA, consideradas sob bloqueio naval pelos alemães.
O recordista foi o U-507, que, operando na costa do nordeste brasileiro sob o comando do capitão-de-corveta Harro Schacht, afundou 6 navios brasileiros num período de apenas quatro dias, de 16 à 19 de agosto de 1942 !

No comando do U-507, o capitão-de-corveta Harro Schacht afundou 6 navios brasileiros em 4 dias. Seu escore final foi de 19 navios, num total de 77.143 t ! Em 13-jan-1943, o U-507 foi afundado a noroeste de Natal-RN, por cargas de profundidade lançadas por um avião de patrulha Catalina PBY americano. Não houve sobreviventes.

E ainda teve a triste história de um pequeno barco de pesca de 20 toneladas, o Changrilá (Shangri-Lá), canhoneado pelo submarino U-199, em 22 de julho de 1943 ao largo de Cabo Frio (RJ), com a morte de seus dez tripulantes, metralhados para que não revelassem a presença do submarino!
Como na ocasião não foram encontrados os corpos, apenas alguns destroços, o desaparecimento deste barco permaneceu um mistério até 1999!
Mas, em 31 de julho de 1943, o U-199, do novo modelo IXD2 (nove-d2), foi localizado na superfície, ao largo do Rio de Janeiro, por dois aviões-patrulha que davam cobertura a um comboio marítimo, um Martin Mariner PBM americano e um Lockheed Hudson A-28 da FAB. 
 
Anjo vingador: o Consolidated Catalina PBY da FAB que pôs a pique o U-199 foi mais tarde batizado como ARARÁ, nome de um dos navios torpedeados pelo U-507 em 1942.

Os dois aviões metralharam e lançaram cargas de profundidade. O submarino teve o leme de profundidade danificado, ficando impedido de mergulhar, mas navegava a todo o vapor na superfície, tentando escapar. Os atacantes haviam esgotado suas bombas. Então, surgiu o reforço de outro avião-patrulha, um Consolidated Catalina PBY da FAB, que, num ataque fulminante, atingiu a belonave alemã em cheio com três cargas de profundidade. 
Segundo consta na narrativa do aviador brasileiro, corroborado pelo relatório do piloto do avião americano, que assistiu a tudo, as cargas detonaram em torno e sob o submarino, com tanta violência que sua proa saltou fora d'água, e ele começou a afundar rapidamente, levando consigo 49 tripulantes.

Fotos desta ação e outros dados sobre o afundamento podem ser encontradas em:


O veterano piloto do 1º Grupo de Caça Alberto Martins Torres (falecido em 2001), ainda aspirante-a-oficial, pilotava o Catalina, e narrou este episódio com detalhes no seu livro OVERNIGHT TAPACHULA.
Doze homens do U-199 sobreviveram e foram capturados, inclusive seu comandante, o capitão-tenente Hans-Werner Kraus. Todos foram recolhidos pelo destróier americano U.S.S. Barnegat e levados primeiro para o Brasil e posteriormente para os EUA como prisioneiros. 
Lá, durante interrogatório, revelaram a história do ataque ao Changrilá, que no Brasil fora dado como desaparecido. Devido ao sigilo sobre os dados do interrogatório, somente em 1999 foi reaberto e encerrado o processo de investigação sobre o desaparecimento do pesqueiro e de seus tripulantes, arquivado em 1945.
E assim, em 2004 os nomes dos tripulantes mortos no Changrilá foram incluídos no Panteão Nacional, já que durante a guerra, a frota pesqueira era considerada oficialmente uma força auxiliar da Marinha do Brasil, no serviço de patrulha marítima costeira.
Desta forma, hoje eu sei com base em informações confirmadas, a identificação de cada submarino que afundou algum navio brasileiro, quem era o seu comandante e qual o fim dado ao submarino. Pena que não posso mais tirar as dúvidas do meu tio, que já se foi...

(*) - Gen. R/R Darcy Lázaro (FEB), Assoc. Ex-Combatentes, Seção Paraná, citado por Diniz Esteves, pesquisador


Nota 1:
Enquanto estava nos retoques finais deste post, recebo da querida amiga Sandra uma notícia do jornal ZERO HORA de Porto Alegre:

A família Schürmann encontrou nesta quinta-feira (14-jul-2011), no Litoral Norte de Santa Catarina, o submarino alemão U-513, naufragado em 19 de julho de 1943. Ele foi encontrado a 75 metros de profundidade.Foram dois anos de buscas, até encontrar a embarcação nazista conhecida como Lobo Solitário. 

Link para a notícia completa:

[Cabe esclarecer que os submarinos (chamados pelos alemães de "lobos cinzentos"), utilizavam uma tática chamada "alcatéia" , onde o primeiro que localizasse um comboio naval transmitia em código sua posição e rumo, e outros submarinos que estivessem nas proximidades se reuniam, acompanhando o comboio até uma hora propícia, às vezes à noite, atacando todos ao mesmo tempo, afundando diversos navios e se dispersando para não serem alcançados pelos navios de escolta. Os submarinos que operavam isolados é que eram chamados "lobos solitários".]

Nota 2:
A querida amiga Carla me enviou links para o site: Gracindo - Conhecendo a História de Aracaju, onde o autor fala sobre o Cemitério dos Náufragos, criado em Aracaju (Sergipe), para enterrar os corpos das vítimas de três dos navios torpedeados pelo submarino U-507, que chegaram à uma praia local (hoje chamada Praia dos Náufragos) em tão grande número que não havia como transporta-los adequadamente para um cemitério oficial.
Veja em:
http://conhecendocesad.blogspot.com/2011/06/visita-ao-cemiterio-dos-naufragos.html
e
http://conhecendocesad.blogspot.com/2011/06/cemiterio-dos-naufragos-manifestacao-e.html#comments