FRASE:

FRASE:

"Se deres um peixe a um homem, vais alimenta-lo por um dia; se o ensinares a pescar, vais alimenta-lo a vida toda."

(Lao-Tsé, filósofo chinês do séc. IV a.c.)

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

HISTÓRIA: AS VÍTIMAS BRASILEIRAS DOS SUBMARINOS

Na minha postagem HISTÓRIA: SUBMARINOS ALEMÃES ATACAM!, eu mencionei que finalmente sabia quem tinham sido os atacantes de todos os navios brasileiros afundados na II Guerra Mundial.
Aqui, está, conforme prometi a mim mesmo, o resultado de muitas consultas e de cruzamentos de informações, sobre o tema navios brasileiros atacados por submarinos do eixo Itália-Alemanha durante a II Guerra. Esta é a lista dos navios afundados, com data, hora e local (quando disponíveis), a identificação do submarino atacante e o nome do seu capitão na ocasião do ataque.


Navios Brasileiros Torpedeados na II Guerra Mundial

1942
N.
Navio
(Mortos)
Data
Hora
(1)
Local
(Posição)
Submarino
Tipo(2)
Comandante
do submarino
01
Buarque
(1)
15/02
04:43
Costa leste dos EUA
36°35'N, 75°20'W
U-432
VIIC
Cp T Heinz-Otto Schultze
02
Olinda
(0)
18/02
18:07
Costa leste dos EUA
37°30'N, 75°00'W
U-432
VIIC
Cp T Heinz-Otto Schultze
03
Cabedelo
(54)
25/02
-
Antilhas?
Da Vinci
Cp Cv Longanesi-Catani
04
Arabutã
(1)
07/03
21:10
Costa leste dos EUA
35°15'N, 73°55'W
U-155
IXC
Cp Cv Adolf C. Piening
05
Cairu
(1)
09/03
02:25
Costa leste dos EUA
39°10'N, 72°02'W
U-94
VIIC
1T Otto Ites
06
Parnaíba
(7)
01/05
20:46
Leste de Trinidad-Tobago
10°12'N, 57°16'W
U-162
IXC
Cp T Jürgen Wattenberg
07
Comte. Lira
(2)
18/05
22:30
200 nm da costa do RN
Barbarigo
Cp T Enzo
Grossi
08
Gonçalves Dias
(6)
24/05
13:15
Mar do Caribe
16°09'N, 70°00'W
U-502
IXC
Cp T J. Von Rosenstiel
09
Alegrete
(0)
01/06
23:51
Mar do Caribe
13°40'N, 61°30'W
U-156
IXC
Cp Cv Werner Hartenstein
10
Pedrinhas
(0)
26/06
23:17
300 nm a NE de Porto Rico
23°07'N, 62°06'W
U-203
VIIC
Cp T Rolf 
Mützelberg
11
Tamandaré
(4)
26/07
08:15
Ao largo de Trinidad-Tobago
11°34'N, 60°30'W
U-66
IXC
Cp T Friedrich Markworth
12
Piave
(1)
28/07
20:30
100 nm leste de Barbados
12°30'N, 55°49'W
U-155
IXC
Cp Cv Adolf C. Piening
13
Barbacena
(6)
28/07
00:40
100 nm leste de Barbados
13°10'N, 56°00'W
U-155
IXC
Cp Cv Adolf C. Piening
14
Baependi
(270)
16/08
00:12
Costa de Sergipe
11°50' S, 37°00'W
U-507
IXC
Cp Cv Harro 
Schacht
15
Araraquara
(131)
16/08
02:02
Costa de Sergipe
12°00'S, 37°19'W
U-507
IXC
Cp Cv Harro 
Schacht
16
Anibal Benevolo
(150)
16/08
09:13
11 nm da Barra de SE
11º42' S/37º23' W
U-507
IXC
Cp Cv Harro 
Schacht
17
Itagiba
(36)
17/08
18:03
Costa da Bahia
norte da Ilha de Tinharé
13°20'S, 38°40'W
U-507
IXC
Cp Cv Harro 
Schacht
18
Arará
(20)
17/08
18:03
Costa da Bahia
norte da Ilha de Tinharé
13°20'S, 38°49'W
U-507
IXC
Cp Cv Harro 
Schacht
19
Jacira
(0)
19/08
00:00
Costa da Bahia
Entre Ilhéus e Itacaré
14°30'S, 38°40'W
U-507
IXC
Cp Cv Harro 
Schacht
20
Osório
(5)
28/09
01:10
Foz do Amazonas
norte de Salinas-PA
00°03'N, 47°45'W
U-514
IXC
Cp T Hans J. Auffermann
21
Lajes
(30
28/09
02:15
Foz do Amazonas-PA
00°13'N, 47°47'W
U-514
IXC
Cp T Hans J. Auffermann
22
Antonico
(16)
28/09
00:00
Costa da Guiana Francesa
05°30'N, 53°30'W
U-516
IXC
Cp Cv Gerhard Wiebe
23
Porto Alegre
(1)
03/11
16:42
Largo de Port Elizabeth -África do Sul
35°27'S, 28°02'E
U-504
IXC
Cp Cv Hans Poske
24
Apalóide
(5)
22/11
22:17
Leste das Pequenas Antilhas
13°28'N, 54°42'W
U-163
IXC
Cp Cv Kurt Engelmann
1943
N.
Navio
(Mortos)
Data
Hora
(1)
Local
(Posição)
Submarino
Tipo(2)
Comandante
do submarino
25
Brasilóide
(0)
18/02
03:15
Costa da Bahia
12°38' S, 37°57' W
U-518
IXC
Cp T Friedrich Wissmann
26
Afonso Pena (125)
02/03
23:01
Ao largo da Bahia
Barbarigo
Cp T Roberto
Rigoli
27
Tutoia
(7)
01/07
00:15
Largo de Iguapé-SP
24º43' S, 47º19' W
U-513
IXC
Cp Cv Rolf Guggenberger
28
Pelotaslóide
(5)
04/07
17:45
5 nm norte de Salinas -PA
00°24'S, 47°36'W
U-590
VIIC
1T Werner Krüer
29
Bagé
(28)
01/08
02:36
30 nm sul de Aracaju-SE
11°29'S, 36°58'W
U-185
IXC/40
Cp T Augustus
Maus
30
Itapagé
(22)
26/09
18:50
10 nm de Lagoa Azeda-AL
10º05'S, 35º54'W
U-161
IXC
Cp T Albrecht Achilles
31
Campos
(12)
23/10
12:33
15 nm de Alcatrazes-SP
24°42'S, 45°45'W
U-170
IXC/40
Cp T Günther
Pfeffer
1944
N.
Navio
(Mortos)
Data
Hora
(1)
Local
(Posição)
Submarino
Tipo(2)
Comandante
do submarino
32
Vital de Oliveira
(99)
20/07
04:54
25 nm sul do farol S. Tomé– RJ
22°29'S, 41°09'W
U-861
IXD2
Cp Cv Jürgen Oesten

(1) A hora, no caso dos submarinos alemães, se refere à hora de Berlim em que foi comunicado o afundamento. Esta coluna não serviu como ordenação, portanto podem haver horários fora de ordem, para um mesmo dia
(2) Os submarinos alemães tipo VIIC eram menores e tinham menor raio de ação que as diversas variantes do tipo IX, maiores e com maior autonomia.

Abreviaturas usadas no quadro:
nm= milha náutica (1.853 m)
N,S,E,W, NE = Norte, Sul, Leste, Oeste, Nordeste
1T = Primeiro-tenente
Cp T = Capitão-tenente
Cp Cv = Capitão-de-corveta

Como se pode ver, pouco mais da metade (17) dos navios brasileiros afundados durante a II Guerra foram atacados em águas nacionais. Os outros foram afundados em diversas partes do Atlântico, como na costa dos EUA e no Caribe. Até no Oceano Índico houve um ataque, no caso do Porto Alegre.

O Arará: um dos seis navios brasileiros torpedeados pelo U-507 entre os dias 16 e 19 de agosto de 1942. De seus 35 ocupantes, 20 foram mortos no ataque.

Originalmente, constavam 34 navios, mas excluímos desta lista o navio Cisne Branco, uma vez que não há nenhuma referência ao seu afundamento nos arquivos dos submarinos alemães, sendo que o submarino que alegadamente o teria torpedeado (U-161) foi afundado no mesmo dia, a uma distância longe demais do local do naufrágio. Muitas contradições envolvem a misteriosa explosão que causou o naufrágio do Cisne Branco. Na realidade, há mais dúvidas do que certezas em relação a este navio e pode ter acontecido algum acidente, já que ele levava carga militar considerada secreta (talvez explosiva), embora declaradamente transportasse apenas sal.
Também foi excluído o veleiro Paracuri, que consta nos arquivos alemães como apenas danificado por tiros de canhão pelo submarino U-159 no Caribe, em 05 de junho de 1942, não havendo registro de vítimas.
Quanto ao Cabedelo, faltam alguns dados, já que este navio saiu em 14-fev-1942 do porto de Filadélfia, nos EUA, com destino ao Rio de Janeiro, e desapareceu sem deixar destroços, sobreviventes ou corpos. Dois pesquisadores europeus, um alemão e o outro italiano, chegaram a mesma conclusão de que ele foi torpedeado pelo submarino italiano Da Vinci, em 25-fev-1942. Porém, não temos informações sobre o local exato. 

 O Cabedelo, que se acredita ter sido afundado próximo às Antilhas pelo submarino italiano Da Vinci, em 25 -fev-1942: 54 mortos.

Também não consta da lista, por não ser um navio, o pequeno pesqueiro de 20 t CHANGRILÁ (Shangri-Lá), afundado ao largo de Cabo Frio (RJ) a tiros de canhão pelo submarino U-199, em 22-jul-1943. O destino deste barco, dado como desaparecido, só foi conhecido no início deste século, quando foi liberado o teor do interrogatório dos tripulantes sobreviventes do U-199, capturados e levados para os EUA, após o afundamento do submarino, em 31-jul-1943. Os 10 tripulantes, do CHANGRILÁ, todos pescadores de Arraial do Cabo, foram metralhados para que não revelassem a presença do submarino naquela posição. Seus corpos nunca chegaram à costa nem foram encontrados.
Este não foi o único caso de desrespeito à tratados internacionais no tratamento de sobreviventes de naufrágios. Após um incidente com o navio Laconia, esses caso se tornaram frequentes.
Em 12-set-1942, no Atlântico Sul, ao largo da costa africana, o submarino U-156, comandado pelo capitão-de-corveta Werner Hartenstein, torpedeou o navio inglês Laconia. O barco transportava 136 tripulantes, 80 civis, 268 soldados ingleses e cerca de 1.800 prisioneiros de guerra italianos, vigiados por 160 soldados poloneses. Percebendo que havia aliados italianos entre os náufragos, o comandante iniciou uma operação de salvamento, convocando mais dois submarinos, um alemão e outro italiano para cooperar no resgate. Rebocando botes e com os conveses cheios de soldados, os três submarinos rumaram para a costa africana quando foram avistados por um avião-patrulha americano. Apesar de ostentarem bandeiras brancas e cruzes vermelhas, foram atacados e forçados a submergir, causando a perda de vidas. Mais tarde, os aproximadamente 1.500 sobreviventes foram resgatados por navios franceses, a essa altura aliados dos alemães.
Em decorrência disso, o almirante Karl Doenitz, comandante da frota submarina alemã, expediu uma ordem para que seus barcos não mais se envolvessem em resgates de passageiros de navios torpedeados. Entretanto, essa ordem não explica o metralhamento sistemático de sobreviventes.
Essa determinação foi um dos motivos que levaram o Almirante Doenitz a ser indiciado pelo Tribunal de Nuremberg, instaurado pelos aliados após o conflito, para julgar os crimes de guerra cometidos pelos alemães. Sua defesa alegou que o mesmo procedimento fora adotado pelos aliados em situações semelhantes, citando ações da marinha dos EUA no Pacífico. Essa estratégia parece ter funcionado, pois ele pegou apenas dez anos de prisão. Doenitz faleceu em 1980, aos 89 anos.
Anos após o Julgamento de Nuremberg, o governo brasileiro, a pedido da Marinha, solicitou a extradição, para julgamento no Brasil, do ex-capitão-de-corveta Gerhardt Wiebe e outros oficiais, que serviam no submarino U-516 por ocasião do torpedeamento do navio brasileiro Antonico, em 28-set-1942, ao largo da Guiana Francesa. Após abandonarem o navio em baleeiras, os quarenta sobreviventes ainda foram metralhados pelos tripulantes alemães, sendo 16 mortos, inclusive o comandante Américo Neves, e diversos feridos. Mas houve sobreviventes que relataram o fato. A extradição foi negada e o Brasil desistiu da solicitação.
As perdas humanas brasileiras nestes afundamentos atingiram a soma total de 1.080 mortos.
Curiosamente, o primeiro navio brasileiro a ser atacado na II Guerra não foi alvo de nenhum submarino, mas de um avião!
Em 22 de março de 1941, o Taubaté, que viajava no Mediterrâneo, do Chipre para Alexandria, no Egito, foi atacado próximo ao seu destino por um avião da Luftwaffe, que após lançar bombas sem acertar, metralhou o navio, mesmo após o içamento de uma bandeira branca, matando um tripulante e ferindo outros 13. A diplomacia brasileira protestou, mas consta que a embaixada alemã não se pronunciou a respeito. Na época, o governo de Getúlio Vargas via com certa simpatia o regime nazista e a política externa brasileira buscava a neutralidade em relação à guerra.
Durante a II Guerra, os submarinos alemães afundaram mais de 3.000 navios aliados.



A lista dos navios brasileiros torpedeados foi elaborada com dados das seguintes fontes:

Apontamentos do Gen. da reserva Darcy Lázaro, veterano da FEB (Assoc. Dos Ex-Combatentes – Seção Paraná), conforme citado pelo pesquisador Diniz Esteves.

Informações constantes no livro do falecido Brig. Ivo Gastaldoni MEMÓRIAS DE UM PILOTO DE PATRULHA.

Em uma série de artigos do mesmo autor, publicados na REVISTA DA AERONÁUTICA, editada pelo Clube de Aeronáutica.

No excelente livro O BRASIL NA MIRA DE HITLER, de Roberto Sander (Ed. Objetiva, 2007), que conta diversos detalhes sobre o afundamento dos navios brasileiros, sobre a atividade de espionagem alemã no Brasil e da política brasileira da época.

No site www.uboat.net, onde constam informações detalhadas sobre as operações de mais de 1000 submarinos alemães durante a II Guerra Mundial.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

NO MEU TEMPO...(CONVERSA DE BOTECO)

Cada vez vejo mais dificuldade em me fazer compreender pelas pessoas. É que no meu tempo muita coisa era diferente.
No meu tempo, "crack" era jogador de seleção, "pó" era o que ficava sobre os móveis quando o tempo estava seco, "fumo" era um rolo coberto de alcatrão,  "balada" era um gênero musical, "gato" era um animal doméstico, "blitz" era tática de guerra alemã, "carreta" era um carro de bois, "vapor" era navio de passageiros e "avião" era o outro nome de aeroplano. 
Para mim, naquele tempo tudo era mais simples, eu tinha poucas coisas e aspirava poucas coisas, apenas coisas que estavam ao meu (curto) alcance.

Poucas coisas restaram daquele tempo...

No meu tempo, não tinha supermercado, e as compras eram feitas na venda da esquina, onde as despesas eram anotadas num caderno, que era pago no final do mes (quando dava). Nas calçadas, as crianças brincavam de bambolês e bolinhas de gude, ao invés de computadores e videogames.
Mas, a gente ia ao colégio para estudar e aprender, não para ter onde comer! E para passar de ano, tinha que ter aproveitamento nas provas e sabatinas. Quando a professora entrava na sala, os alunos ficavam respeitosamente de pé, até que ela desse "bom dia" e mandasse sentar.
No meu tempo, os bandidos portavam revólveres e fugiam da polícia, ao invés de atacar até delegacias, com bandos armados com armas de guerra. E quando a polícia pegava um ladrão, que havia roubado um relógio ou uma carteira, era mostrado numa foto do jornal, geralmente um molecão magricela, descabelado e vestindo uma camiseta. 
As coisas continuam as mesmas, só que diferentes... 
Alunos andam armados e agridem professores, e ainda recebem apoio paterno.
Hoje, os ladrões são senhores de cabelos grisalhos ou pintados, e aparecem nos telejornais dando entrevistas coletivas, cheios de pose, vestindo ternos e gravatas de grifes famosas, tentando justificar a forma como roubaram milhões do dinheiro público (nosso dinheiro)!
Na realidade, isso até foi uma melhora, já que antes, mesmo roubando, eles não tinham sequer que aparecer em público para se explicar! Talvez ainda chegue um dia em que eles aparecerão algemados, indo para as celas. Ah, e sem que ninguém tome as dores e saia em sua defesa.
Sou um saudosista, mas não a ponto de acreditar que tudo era perfeito ou de deixar de reconhecer os confortos e benefícios que a tecnologia nos trouxe nesta era. 
Entretanto, vieram também as mudanças sociais e comportamentais que nos fizeram abrir mão de algumas coisas simples que se perderam para sempre... 
Coisas tais como inocência, respeito e fé...
Mas, enfim, tudo tem um preço...

sábado, 6 de agosto de 2011

THOR HEYERDAHL E A EXPEDIÇÃO KON-TIKI

O primeiro livro que eu li na minha vida na realidade era uma condensação, um resumo do livro, publicado pela revista Seleções do Reader's Digest. Porém, foi o suficiente para prender minha atenção e me despertar para um universo de coisas que ficavam além dos limites do quintal da casinha onde eu morava. Alguns anos mais tarde, eu pude adquirir a versão completa do livro, que foi devorado com o mesmo apetite com que fora o resumo.
A referida obra chamava-se A EXPEDIÇÃO KON-TIKI (Ed. Melhoramentos, 1951), de Thor Heyerdahl, pesquisador norueguês. Thor foi o primeiro “super-herói” real que eu admirei.
Logo nas primeiras linhas, fiquei fascinado por suas teorias sobre a migração dos povos sulamericanos e polinésios.


A equipagem da Kon-Tiki. Da esquerda para a direita: Knut Haugland, Bengt Danielsson, Thor Heyerdahl, Erik Hesselberg, Torstein Raaby e Hermann Hatzinger.
Com exceção do sueco Danielsson, todos eram noruegueses. 

Após estudar as tradições destes povos, ele achou coincidências que pareciam indicar que a história de uns começava onde a de outras dera uma reviravolta. Haviam muitos indícios de que as tradições polinésias começavam como uma continuação de uma migração para o oeste de antigas tribos incas.
E o ponto de união era o personagem Kon-Tiki, um lendário chefe que liderara a migração partindo da costa oeste da América do Sul e que também aparecia nas tradições polinésias como o pioneiro que viera do sol nascente para fundar as primeiras povoações nas ilhas do sul do Pacífico.

Representação tradicional de Kon-Tiki ou Viracocha: uma figura como esta foi estampada na vela da jangada.

Tudo começara na década de 30, quando Thor e sua esposa Liv, em lua de mel, estavam na ilha de Fatu Hiva, no arquipélago das Marquesas, no Pacífico Sul. Só que sua “lua de mel” já durava mais de um ano, e se fundira com uma viagem de estudos!
Eles eram os únicos brancos na ilha e moravam em uma cabana à beira-mar construída por eles mesmos. Comiam apenas frutas, peixe e frutos do mar que eles próprios apanhavam.Uma espécie de pré-hippies!
Lá, numa noite, naquela atmosfera de sonho tropical, eles conversaram sobre uma coisa intrigante: Liv não entendia porque as ondas batiam forte sempre em apenas um dos lados da ilha, enquanto no outro o mar ficava calmo. O estudioso Thor explicou que as correntes marítimas predominantes naquele local vinham no sentido leste-oeste, e por isto o lado leste era sempre batido pelas ondas.
Nesta mesma ilha, um velho chefe nativo, que ele nunca esqueceria, lhe falou que Kon-Tiki, o pai fundador de sua tribo, viera de terras distantes do outro lado do mar, da direção do sol nascente. Thor não deixou de lembrar que na Ilha de Páscoa, que fica no caminho entre o continente americano e a Polinésia, havia monumentos de pedra que lembravam outros existentes na América do Sul.
No Peru, ele havia descoberto que o nome original do rei-sol dos incas, Viracocha, era KON-TIKI ou ILA-TIKI. E que esse rei, depois de atacado e derrotado por outro chefe, chamado Cari, numa batalha em uma ilha do lago Titicaca, fugiu com os sobreviventes para o mar, rumando para o ocidente.

A Kon-Tiki: apenas uma palhoça sobre troncos de balsa para cruzar o Pacífico e comprovar a possibilidade de uma teoria. Bandeiras dos países envolvidos foram hasteadas nos mastros.

Nos anos 30, havia teorias variadas, tentando explicar o povoamento da Polinésia como resultado de migrações originárias da Ásia, da África e até da Europa.
A hipótese sulamericana não constava nas explicações ensinadas nas escolas sobre a povoação dos continentes. E como Thor não era membro de nenhum grupo dominante nas academias de ciência, os eruditos não levavam a sério suas teorias.
E o principal óbice que lhe lançavam no rosto era a impossibilidade de atravessar o imenso Oceano Pacífico, já que não havia nenhum registro de que os sulamericanos possuissem embarcações oceânicas, nem habilidades como navegadores marítimos.
E foi daí que o determinado Thor, que apesar de vir da terra dos vikings, fora criado nas montanhas do interior e jamais se aventurara a navegar no mar, resolveu fazer algo muito ousado.

Thor Heyerdahl - (6-out-1914 - 18-abr-2002)

Ele já havia pesquisado sobre um tipo de embarcação primitiva sulamericana, uma jangada feita com troncos de balsa, madeira muito leve e fácil de entalhar.
E sua proposta foi essa: construir com materiais naturais uma jangada típica da época dos incas e tentar chegar à Polinésia navegando à vela, e pegando carona nas correntes marítimas que levam para o oeste!
Com financiamento obtido através de empréstimos e doações particulares de amigos militares do exército americano, a jangada foi construída,  com licença do governo peruano, medindo aproximadamente 13,70 X 5,50 m, com uma cabana-abrigo de 4,20 X 2,40 m no centro.
A ideia era simular o mais que possível as condições originais, mas a contragosto, outro participante da tripulação o convenceu a levarem um aparelho de rádio transmissor-receptor. 

 O roteiro da Kon-Tiki através do Pacífico.
 
E, no dia 28 de abril de 1947, levando Thor e outros cinco tripulantes voluntários, a jangada partiu do porto de Callao, no Peru, para a “impossível” jornada.
Lembrando a Enterprise de Star Trek, “se aventurando audaciosamente onde homem nenhum jamais esteve”! Claro que não era essa a opinião de Thor Heyerdahl ! Para ele, tudo o que faziam era repetir o mesmo caminho de Kon-tiki. Por isto mesmo,  a jangada foi batizada com o nome do navegador que ele acreditava ser o pioneiro.
Após muitas dificuldades, eles aprenderam alguns macetes, como pilotar a jangada com o auxílio de quilhas corrediças ao invés do leme, cavalgando as correntes de Humdbolt e Equatorial, através do maior dos oceanos.
E, no dia 7 de agosto de 1947, após 101 dias de travessia e tendo percorrido 7.964 km, a Kon-Tiki encalhou nos recifes da desabitada ilhota de Raroia, no arquipélago Toamotu!

 No final, o paraíso...Nesta paisagem de sonho, nas Ilhas Tuamotu, Thor Heyerdahl e sua equipagem encalharam a Kon-Tiki em 07 de agosto de 1947, após atravessarem o Pacífico Sul, numa jornada de quase 8.000 km.

Com 8 anos, senti a emoção tomar conta de mim, enquanto lia as páginas finais...
Eu tenho o livro encadernado até hoje, assim como um filme documentário sobre a viagem.
Thor não parou por aí e continuou pesquisando novas hipóteses, desta vez propondo que a população das américas poderia ter vindo do Egito através do Atlântico. Construiu um barco estilo egípcio em papiro, o Ra (nome do deus-sol egípcio), para atravessar o Atlântico, partindo de Marrocos. O barco teve problemas e naufragou, mas ele mudou o método de construção e fez outra tentativa com o Ra II, com o qual conseguiu chegar em Barbados, no Caribe.

 O Ra II no Kon-Tiki Museum, em Oslo, Noruega. Para acessar o site do museu, clique no link: http://www.kon-tiki.no/e_aapning.php

Esta viagem rendeu outro livro e um filme. Ele fez outras expedições à ilha de Páscoa, aos Galápagos e ao Oriente Médio.
Em Oslo ficam o Kon-Tiki Museum e a Thor Heyerdahl Research Foundation. Thor escreveu 15 livros sobre as suas teorias, viagens e expedições. O livro sobre a expedição Kon-Tiki foi traduzido em mais de 70 línguas e vendeu mais de 50 milhões de exemplares!
Há poucos anos, li um dos seus últimos livros, NA TRILHA DE ADÃO (Editora Schwarcz, 2000 – original: Adams Fotspot, 1998), uma autobiografia onde ele fala inclusive sobre sua atuação na II Guerra Mundial, e na luta para defender suas teorias sobre as migrações.

Thor Heyerdahl faleceu em 18 de abril de 2002, na Itália, aos 87 anos.
Mas, seu nome vaga pelo espaço, entre Marte e Júpiter: o asteroide 2473 foi batizado Heyerdahl, em sua homenagem.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

CIÊNCIA: TEMOS COMPANHIA!

Nossa Terra, a dama azul que roda pelo salão do sistema solar, não estava sozinha! Um pequeno vagabundo errante lhe serve de abre-alas há muito tempo, oculto discretamente nas trevas frias do espaço.
Notícia publicada na revista NATURE revela que os astrônomos que estudam as fotos tiradas pelo satélite-observatório espacial WISE, acabam de descobrir o asteroide 2010TK7, o primeiro “troiano” identificado orbitando o Sol enquanto circula à frente da Terra.
“Troianos” são chamados os asteroides que compartilham a órbita de outro corpo celeste, girando em torno de um dos pontos de equilíbrio gravitacional, adiante ou atrás dele. Enquanto sempre precedem ou seguem o planeta, jamais colidirão com ele. Os astrônomos responsáveis pela descoberta afirmaram garantir que a órbita de 2010TK7 permanecerá estável por pelo menos mais 7.000 anos. Ufffa!
No nosso sistema solar, já se sabia que Netuno, Júpiter, Marte e duas luas de Saturno dividiam suas órbitas com asteroides troianos.

 A órbita da Terra aparece em azul. O Sol é o círculo amarelo no centro. A órbita de 2010TK7 está em verde. Suas revoluções acompanham a translação da Terra. Se não sofrer interferência de outro corpo celeste, deverá permanecer sem alterações significativas por pelo menos 7.000 anos. (Foto: Nature Magazine)

Cientistas já haviam previsto que a Terra deveria ter troianos, mas que seriam difíceis de ver por seu tamanho relativamente pequeno e por ficarem visíveis durante o dia, próximos do Sol, pelo ponto de vista terrestre.
A descoberta de 2010TK7, uma rocha de aproximadamente 300 metros, foi confirmada posteriormente por observações feitas a partir de um telescópio terrestre no Havaí.
Saiba algumas informações sobre o WISE, o satélite-observatório autor das fotos que permitiram a descoberta do asteroide troiano.

 WISE: uma pequena maravilha recheada com tecnologia de ponta e resfriada por um sistema criogênico, que fotografou o espaço durante apenas 14 meses. Mesmo assim, os cientistas acham que valeu a pena. (Imagem:extraída de uma concepção artística da NASA/JPL.)

WISE – Wide-field Infrared Survey Explorer
(Explorador de Busca Infravermelha de Grande Amplitude)
Projeto: NASA e Jet Propulsion Laboratory.
Construtores:
Ball Aerospace, Lockheed-Martin, Space Dynamics Laboratory e SSG Precision Optronics Inc.
Peso: 750 kg
Lançamento: 14-dez-2009 – Base aérea de Vanderberg (Lompoc, Califórnia).
Desativação: 17-fev-2011, quando seu transmissor foi desligado.
Custo da missão: 320 milhões de dólares.

Resumo da missão:
Lançado por um foguete Delta II, o WISE foi colocado a orbitar a cada 95 minutos em torno da Terra, numa distância de 535 km. Sua proposta primária seria mapear objetos cuja luz não fosse visível da Terra, devido ao baixo índice de reflexão, ou à sua absorção pela atmosfera terrestre.
O satélite foi colocado em uma órbita polar, passando por ambos os polos e se mantendo sempre sobre a linha do crepúsculo, de forma a ficar sob a sombra protetora do seu próprio coletor solar, abrigado permanentemente da radiação do Sol.
Como o calor poderia distorcer imagens infravermelhas, seus sensores foram mantidos a uma temperatura de 8° Kelvin (-265° C) por meio de um sistema criogênico que utilizou hidrogênio.
Durante 10 meses, realizou uma busca ampla nos céus com um telescópio infravermelho de 40 cm de diâmetro, captando aproximadamente 1,5 milhão de imagens (uma a cada 11 segundos) em quatro faixas de comprimentos de ondas:

Faixa 1 (3.4 µm): adequada para captar estrelas e galáxias.
Faixa 2 (4.6 µm): detecta radiação térmica de fontes internas em objetos subestelares como anãs marrons (estrelas que não se desenvolveram – em Portugal: anãs castanhas).
Faixa 3 (12 µm): detecta radiações térmicas dos asteroides.
Faixa 4 (22 µm): detecta nuvens de poeira cósmica em locais de formação de estrelas, onde as temperaturas alcançam 70 a 100 graus Kelvin.
(1 µm (micron) = um milionésimo do metro)

Nesta foto batida pelo WISE, 2010TK7 está assinalado pelo círculo verde na parte inferior direita.
(Foto: NASA/JPL - Caltech - UCLA.)

Em outubro de 2010, se esgotou o suprimento de hidrogênio usado como arrefecimento, e as verbas inicialmente alocadas para o projeto. Mas, mesmo com limitações operacionais, o projeto recebeu um reforço de verbas e ainda foi tocado por mais 4 meses, no programa chamado NEOWISE ( NEO de Near-Earth Objects) pesquisando pequenos corpos celestes nas proximidades da órbita terrestre.
Os resultados totais da missão serão publicados em março de 2012, mas sabe-se de antemão que o WISE descobriu mais de 33.500 novos asteroides e cometas, tendo observado mais de 154.000 objetos dentro do nosso sistema solar, até outubro de 2010. Além disto, também foram feitas imagens da Via Láctea e do espaço exterior a ela.
E, de quebra, ainda revelou a presença deste nosso pequeno parceiro de dança, bailando com a Terra no imenso salão espacial.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

OSCAR PISTORIUS: DEFICIENTE OU SUPERDOTADO?

Ciborgue (organismo cibernético) é um organismo onde foram acopladas partes sintéticas, com a finalidade de melhorar sua capacidade natural com o auxílio de tecnologia avançada.
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Na década de 70 do século passado, eu acompanhei uma série da TV americana intitulada O HOMEM DE SEIS MILHÕES DE DÓLARES, onde o astronauta e piloto de provas Steve Austin (Lee Majors), após sofrer um grave acidente aeronáutico, serve de cobaia para um experimento de seis milhões de dólares (na época uma quantia fabulosa), utilizando a melhor tecnologia state-of-the-art existente, e tem as partes de seu corpo afetadas pelo acidente substituidas por peças eletrômecânicas que o transformam num super-homem.

 Lee Majors, como Steve Austin, o astronauta que virou super-homem no seriado, apresentado no Brasil pela TV Bandeirantes nos anos 70
.
Para não falar de Arthur C. Clarke (sempre ele) que já havia antecipado esta situação, no seu conto ENCONTRO COM MEDUSA, de 1971.
Dia 19 do corrente mês, em Lignano Sabbiadoro, na Itália, o atleta sul-africano Oscar Pistorius, de 24 anos, atingiu a marca de 45,07 segundos nos 400 metros rasos, qualificando-se para disputar as olimpíadas de 2012, em Londres. Esta marca também o qualificou para participar do Mundial de Atletismo de Daegu, Coréia do Sul, no mês que vem.
Esta notícia pareceria banal, se não fosse pelo fato de Oscar Pistorius ter nascido com um defeito congênito, sem as fibulas (fibula é um osso que liga o calcanhar ao joelho) em ambas as pernas, o que fez com que elas fossem amputadas abaixo do joelho quando ele tinha 11 anos!

 A fibula, também chamada perônio: osso que faltou a Oscar Pistorius.

Seu pai, Heinke Pistorius, diretor de uma mina de cal em Pretória, incentivou Oscar a aprender a andar usando próteses, que eram substituídas a cada nove meses. Oscar se adaptou muito bem, passou a jogar tênis e chegou a ter destaque como jogador de rúgbi, até que uma lesão no joelho o levou a abandonar esse esporte e a dedicar-se ao atletismo.
Com próteses fabricadas na Islândia, feitas com fibra de carbono, seu desempenho melhorou significativamente.  Sintomaticamente, essas próteses são chamadas Cheetah (guepardo, um felino africano muito veloz).

 "Blade Runner": segundo testes feitos pela IAAF, suas próteses lhe dão vantagem de 25% sobre os corredores comuns!

Em 2004, nos Jogos Paraolímpicos de Atenas, obteve ouro nos 200 m e bronze nos 100 m.
Em 2005, na Copa do Mundo Paraolímpica, foi medalha de ouro nos 100 e 200 m.
Por isto, recebeu o apelido de “Blade Runner”, pois corria sobre lâminas de carbono.
Foi então levantada a hipótese de que Oscar teria vantagem sobre os outros atletas amputados de apenas uma perna, já que suas próteses teriam na verdade desempenho superior ao de uma perna normal.
Em 2007, ele começou a competir contra os atletas não portadores de deficiência, o que também se tornou motivo de polêmica.
Em 2 de novembro de 2007, em função de protestos, a Associação Internacional de Federações de Atletismo (International Association of Athletics Federations - IAAF) Órgão que rege o atletismo internacional, convocou Oscar até Colônia, Alemanha, para avaliar se suas próteses representavam ajuda tecnológica ao seu desempenho nas pistas.
O desempenho de Oscar foi comparado ao de outros seis corredores não-amputados, com o uso de 12 câmeras infravermelhas e quatro câmeras de vídeo de alta velocidade, analisando os pontos de apoio,as forças de reação recebidas do solo, o armazenamento e recuperação da energia elástica, as alterações de extensão e freqüência das passadas, o consumo de oxigênio e a produção de ácido láctico.
As conclusões da equipe médica que fez a análise foram de que Pistorius, com ajuda dessas próteses, “dispunha de assistência mecânica e fisiológica que lhe conferiam no mínimo 25% de vantagem em relação aos seus concorrentes”!
Em consequência, o atleta teve a sua participação nos Jogos Olímpicos de Verão de 2008 vetada pelo Comitê Olímpico Internacional.
Oscar recorreu da decisão, e em Maio de 2008, o TAS (Tribunal Arbitral du Sport) autorizou-o a competir nos Jogos Olímpicos de Pequim. Contudo, ele não conseguiu obter índices para a qualificação.
Agora, qualificado com a marca obtida em Lignano Sabbiadoro, ele já recebeu as boas-vindas da organização dos Jogos Olímpicos de Londres-2012.
Breve poderemos avaliar seu desempenho numa competição de ponta, e concluir se ele, além ser mais um grande exemplo de superação humana, é também uma vitória da tecnologia, como o ciborgue do seriado, capaz de superar competidores comuns.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

DIVAGAÇÕES SOBRE O PROPÓSITO DA EXISTÊNCIA

Eu acabei de ler um post de minha amiga Regina Rozenbaum (Link=> Sentada no Boi?), onde ela me fez lembrar do passado e pensar novamente em algumas questões que povoavam meus pensamentos naqueles idos dos anos 70 do século XX. 
Houve um tempo na minha vida em que eu pensava que para toda a pergunta havia uma resposta certa. Eu realmente acreditava que toda a questão colocada implicava em uma explicação satisfatória.
Eu lia textos meio encucados de pensadores famosos, reflexões sobre questões existenciais, e ficava intrigado com uma questão recorrente: qual o propósito da nossa existência?

Talvez nem todas as questões tenham respostas ao nosso alcance.

Arthur C. Clarke, mestre da ficção-científica, sugeriu uma resposta no seu conto OS NOVE TRILHÕES DE NOMES DE DEUS. 
Nesta pequena história, publicada na coletânea de contos, SOBRE O TEMPO E AS ESTRELAS (Of Time and Stars - 1972) - Ed. Nova Fronteira- 1978, reproduzida também no livro O DESPERTAR DOS MÁGICOS, de Louis Pawels e Jacques Bergier, uma congregação de monges de um mosteiro asiático adquire um computador (no tempo em que os computadores eram quase do tamanho de um prédio) para que ele seja programado para ficar escrevendo todos os nomes de Deus. Segundo eles, esses nomes somariam nove trilhões e este seria o propósito da existência da humanidade e do próprio mundo: conhecer todos os nomes de Deus! 
Uma vez cumprida essa finalidade, não haveria nenhum motivo para que a humanidade continuasse existindo, pois já havia cumprido o seu divino desígnio!
Hoje, os computadores já estão quase tão populares como os telefones celulares, podem até nos acompanhar para toda a parte, mas eu jamais pensaria em utilizar um deles para procurar respostas a questões como esta.
Sem entrar em debates de natureza teológica, estou apenas hipotéticamente admitindo que nosso universo não foi fruto de um imenso acaso, numa confluência fantástica de coincidências para que as coisas saíssem exatamente assim, desde as equações fractais que determinam as formas dos cristais de gelo ou a construção das orquídeas e das próprias galáxias, até as leis que mantém em equilíbrio todo este caos aparente.
Assim, nesta minha hipótese, nosso universo, para ter início como pretendem os cientistas, só poderia tê-lo se em algum momento começou a existir!
Ou seja, o que chamamos de "universo" (a porção de espaço ao alcance dos nossos meios de visualização ou percepção) é na realidade apenas um evento num contexto maior, e pode ter sido criado por uma entidade inteligente, talvez de forma intencional! E aí surge a figura do criador (Deus?)!

 Nosso "universo" poderia ser apenas um evento num contexto muito maior.
E isto estaria muito além do alcance da nossa vã filosofia (ciência).

Se o nosso universo surgiu por obra deste criador, a sua natureza e seus desígnios estão tão acima de nossa compreensão que tornam ridículas quaisquer tentativas de formular hipóteses!
Usando uma comparação já batida, seria o mesmo que uma colônia de bactérias, na lâmina de um microscópio, conjeturar sobre a natureza e propósitos do cientista que as espia pela ocular!
Mas, por que fomos criados com esta capacidade de questionar coisas que estão acima de nosso alcance, antevendo respostas que não podemos comprovar?
Perguntem ao criador!
Espero que as pessoas de fé me perdoem pelas heresias que cometi enquanto desfiava as besteiras acima descritas. E que os cartesianos e agnósticos me perdoem por formular hipóteses sem nenhuma base.
Minha intenção não é questionar as crenças ou descrenças de ninguém, mas apenas expôr as coisas que já passaram em algum momento por esta minha mente confusa.
Mas, para sair dessa agonia, formulo logo uma teoria para me tranquilizar: o propósito de nossa existência começou a ser definido quando um tal William Gates, depois de roubar um programa de computador de seu "amigo" Steve Jobs e vende-lo para a IBM como interface gráfica Windows, colocou inserido nele um joguinho chamado Paciência Spider! 
Pois o tal propósito da humanidade está ali: resolver todas as formas possíveis de empilhar as cartas, usando os quatro naipes!
Quando isto acontecer, será desnecessária a existência da humanidade e deste "universo" criado apenas para conte-la!
Então, o CRIADOR extinguirá a minúscula chama que chamamos universo!
Eu jogo, todos os dias, obsessivamente, queimando mais e mais possibilidades!
Um dia, acabarei com este universo!  Será o Big Puff!