FRASE:

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"Se deres um peixe a um homem, vais alimenta-lo por um dia; se o ensinares a pescar, vais alimenta-lo a vida toda."

(Lao-Tsé, filósofo chinês do séc. IV a.c.)

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quinta-feira, 8 de novembro de 2012

LIVRO: O RIO DA DÚVIDA

Depois de muitas interrupções, acabei finalmente a leitura de um excelente livro: O RIO DA DÚVIDA, da escritora Candice Millard, na edição brasileira (Cia. Das Letras) traduzida por José Geraldo Couto.
O livro trata de um assunto que eu conhecia vagamente, mas sobre o qual tinha certa dificuldade em conseguir mais informações: uma expedição empreendida no início do século passado, envolvendo o nosso lendário Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon e o ex-presidente americano Theodore (Teddy) Roosevelt. 

Candice Millard é escritora e jornalista, e já foi editora da revista National Geographic. O Rio da Dúvida foi seu primeiro best-seller. Destiny of the Republic, sobre o presidente americano Garfield, foi outra obra de sucesso.
 
De janeiro a abril de 1914, um grupo heterogêneo de brasileiros e americanos que partira de Tapirapuã, uma aldeia no Mato Grosso, desceu em canoas por um rio desconhecido, buscando sua foz.
O objetivo era mapear o curso do misterioso rio, chamado até então Rio da Dúvida, e depois rebatizado Rio Roosevelt, em homenagem ao ilustre convidado. 
Rondon e outros exploradores presumiam que este seria mais um longo afluente do Amazonas (na realidade, ele se une ao Rio Madeira, um dos principais afluentes do Amazonas, sendo considerado seu afluente) . Naquele longínquo 1914, há quase cem anos, a única forma de mapear um rio era descer por ele, documentando o seu curso a medida que se progredia, nas suas águas ou nas suas margens. É claro que era preferível descer o rio de carona na sua correnteza, placidamente sentado em uma canoa...
Mas, o inexplorado Rio da Dúvida reservava surpresas nada agradáveis ao longo de seu leito, tanto nas suas águas como nas suas margens.
Suas águas não se mantinham plácidas por muito tempo e logo se precipitavam em incontáveis corredeiras, algumas impraticáveis para as pesadas pirogas usadas pela expedição, que neste caso, tinham que ser arrastadas por terra.
O território em torno das margens do rio, além de ser escasso em animais que servissem de caça, ainda contava com a presença dissimulada mas ameaçadora dos hostis índios cinta-larga, com suas flechas envenenadas e bordunas.
(A escassez de animais relatada talvez se devesse aos ruídos da numerosa massa de homens em deslocamento com seus equipamentos e provisões, agindo como um verdadeiro espantalho para a fauna nativa.)
Roosevelt, apaixonado por aventuras gloriosas, na ocasião já estava com mais de 54 anos, levava junto consigo seu filho Kermit e uma pequena comitiva de convidados americanos, alguns dos quais foram gradativamente se retirando, a medida que a jornada endurecia...
A jovem escritora fez um bom trabalho, e relata de forma isenta o relacionamento às vezes tenso, mas sempre respeitoso entre o então coronel Rondon e o ex-presidente americano.
As formas de ver de ambos os líderes eram bem diferentes: para Roosevelt, naquelas condições, assassinatos deviam ser punidos imediatamente com a morte e ataques de índios rechaçados a tiros, enquanto que Rondon mantinha-se fiel às leis brasileiras e à sua célebre divisa no trato com as populações indígenas: “Morrer, se preciso...Matar, nunca!” 

O fim da dúvida: Roosevelt e o nosso herói Rondon posam ao lado da placa que oficializou o novo nome Rio Roosevelt, em homenagem ao ex-presidente americano, que quase pereceu durante a jornada.

O oficial brasileiro, ele próprio descendente de índios, não hesitava em por em risco a vida de seus comandados e até mesmo a sua, para evitar qualquer violência contra os silvícolas, por mais ferozes que fossem.
Além disso, Rondom estendia ao longo do seu caminho cabos telegráficos e colocava marcos de referência, atividade que, para Roosevelt, atrasava a marcha da expedição. O que para o americano era um safári recreativo, para o brasileiro era mais uma missão na sua perigosa rotina de explorador.
Mas, a selva brasileira era mais traiçoeira do que poderia imaginar o ferrenho Roosevelt. Cobrou seu preço em vidas de soldados, e o ex-presidente, que já tinha problemas físicos em uma das pernas, viu-se incapaz de prosseguir por seus próprios meios. Não querendo se tornar um fardo, chegou a planejar a própria morte, só não cometendo o suicídio por intervenções de Rondon e de seu filho Kermit.
Alguns anos mais tarde, Theodore Roosevelt faleceria, em parte por consequências das sequelas sofridas nesta épica jornada pelas selvas brasileiras.
Ironicamente, os cabos telegráficos colocados durante a expedição logo se tornariam obsoletos, com a introdução do telégrafo sem fio.
Obviamente, a autora se concentra mais no drama sofrido por Roosevelt, mas não deixa de destacar a personalidade marcante do nosso super-herói Rondon.
Um excelente livro, onde se tem as sensações e aflições de estar realmente no interior da floresta e balançando nas rasas canoas, descendo aquele que um dia foi chamado o Rio da Dúvida, tal era o mistério que o cercava.
Se puderem, leiam! Melhor que muito filme!
Aliás, como Hollywood ainda não descobriu essa excelente história real?