FRASE:

FRASE:

"Se deres um peixe a um homem, vais alimenta-lo por um dia; se o ensinares a pescar, vais alimenta-lo a vida toda."

(Lao-Tsé, filósofo chinês do séc. IV a.c.)

Mostrando postagens com marcador anos 50. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador anos 50. Mostrar todas as postagens

domingo, 8 de julho de 2012

DOIS ANOS: FAÇANHA REVISTA


Hoje, quando meu blog completa dois anos de atividades, escolhi recordar meu primeiro post: UMA FAÇANHA ESQUECIDA.
Nesta primeira incursão blogueira, eu contei um fato que me causou grande impacto na infância: a chegada à Porto Alegre de uma jangada tripulada por cinco jangadeiros, vindos do distante Ceará, lugar que eu mal podia imaginar como seria.
Aos olhos dos gaúchos, os veteranos e bronzeados navegantes nordestinos chefiados pelo lendário Mestre Jerônimo, surgiram (com justiça) como verdadeiros heróis, como se tivessem descido do espaço, vindos de outro planeta. E durante alguns dias, só se falou deles, com justa admiração.
Mas quando, 60 anos depois, resolvi escrever sobre este fato, fiquei surpreso com a quase total falta de informações sobre o assunto, como se aquilo nunca tivesse acontecido!
Foi preciso uma busca penosa e insistente, e contatos com outros blogueiros até que eu finalmente pudesse confirmar que não fora um sonho nem um fato imaginário, mas uma história real, esquecida por quase todos.
Hoje sei mais sobre este evento do que sabia na época em que escrevi o post original.

Uma multidão cerca a jangada Nossa Senhora de Assunção na antiga Praia de Belas, em Porto Alegre. Foto: Cmte. Augusto Chagas, em: http://www.popa.com.br/imagens/ac/protesto.htm.
 
Graças à ajuda de meus amigos Jair e Barcellos, e de outros blogueiros, algumas informações puderam ser acrescentadas ao texto:
A jornada à Porto Alegre já não era a primeira aventura de Mestre Jerônimo e seus companheiros. Em 1942, eles foram documentados em um “raid” Fortaleza-Rio, por ninguém menos do que Orson Welles, o talentoso ator e cineasta americano, que se encontrava no Brasil, filmando o documentário (jamais concluído) IT'S ALL TRUE. E, durante estas filmagens, no Rio, ocorreu a morte acidental de Manoel Olímpio Meira, o Jacaré, um dos jangadeiros.
Mais informações sobre Jacaré no excelente blog de Jaqueline Cordeiro: COISA DE CEARENSE, link:
http://coisadecearense.blogspot.com.br/2010/07/historia-do-ceara-o-pescador-jacare.html

Assim, esta viagem, que se estendeu até Porto Alegre em 1951, teria sido a segunda da mesma equipagem.
Mas, o blog O MAR DAS GARRAFAS, do professor David Luna de Carvalho, relata ainda, no post (link): O MAR DOS QUATRO JANGADEIROS DO CEARÁ:

Algo parecido ocorrera em 1923, quando quatro jangadas, sob o comando de Mestre Filó, viajaram do Rio Grande Norte até o Rio de Janeiro, para animar os festejos do Centenário da Independência. Os jangadeiros potiguares foram brindados, na época, com um poema de Catulo da Paixão Cearense, mas seu feito não chegou à imprensa estrangeira nem virou filme.”

Isso mostra que aparentemente os pioneiros em raids de longo curso em jangada foram estes potiguares que fizeram a viagem ao Rio em 1923.
No site da USP sobre o XXVI Simpósio Nacional de História, achamos um excelente trabalho de BERENICE ABREU CASTRO NEVES, da Universidade Estadual do Ceará :
Os Jangadeiros de Vargas: Reflexões acerca das viagens reivindicatórias de jangadeiros cearenses.
Neste texto, que faz análises bem profundas sobre as motivações sociais das jornadas empreendidas pelos jangadeiros, há uma citação atribuída ao lendário Mestre Jerônimo:

É uma vida desgraçada essa nossa, tão desgraçada que parece que as autoridades tem medo de olhar pra ela cara a cara”.

A autora conta com exatidão a data da morte de Jacaré, na viagem de 1942:

Manuel Olimpio Meira, conhecido como Jacaré, morreu nas águas da Guanabara, em 19 de maio de 1942, quando filmava para o diretor americano Orson Welles as cenas da chegada da Jangada São Pedro ao Rio de Janeiro.”

Em outro trecho, ela acrescenta mais informações sobre a jornada de 1951, inclusive o nome dado à jangada usada na viagem à Porto Alegre:

A bordo da Nossa Senhora de Assunção, o mesmo mestre Jerônimo (com 52 anos), o sexagenário Raimundo Correia Lima, o Tatá (com 62 anos), e Manuel Pereira da Silva, o Manuel Preto (com 49 anos), antigos companheiros de Jacaré, que fizeram com ele a viagem até a capital da República, a bordo da jangada São Pedro, em 1941. Mais dois Manuéis vieram juntar-se aos veteranos: eram os pescadores Manuel Lopes Martins (59 anos) e o sobrinho de Mestre Jerônimo e mais novo do grupo, Manuel Batista Pereira (com 30 anos), a quem o jornalista do Unitário (14/10/1951) descreve como 'moço e forte como um touro'.”

E prossegue mais adiante:

Em outubro de 1951, os cinco tripulantes da jangada Nossa Senhora de Assunção, partem rumo a Porto Alegre, levando na bagagem, além dos apetrechos necessários à tão longa e arriscada travessia, memoriais contendo a reivindicações da classe. Mas, como disse Mestre Jerônimo a um jornalista, não iam pedir nada de novo, apenas cobrar o cumprimento das promessas feitas.”

Agora, ainda me resta cumprir uma etapa: voltar ao Museu Júlio de Castilhos, em Porto Alegre, e saber que destino teve a jangada, assim como as roupas e objetos dos tripulantes, que eu vi pessoalmente nos anos 60!
Mas, nesta data, quero agradecer aos amigos que me incentivaram a criar este espaço e aos que, se declarando ou não como leitores (seguidores), volta e meia aparecem para ler, e às vezes também comentar, minhas postagens.
Só as visitas de vocês, amigos, é que motivaram a existência e a sobrevivência d'O ASTEROIDE durante estes dois anos.
Continuarei usando este espaço como um local para compartilhar minhas experiências, curiosidades, divagações e sentimentos com todos vocês!
Muito obrigado!

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

RECORDANDO: UM MUNDO DIFERENTE

Porto Alegre - 1950: Um mundo diferente, onde  o tempo se arrastava com preguiça, e as mudanças custavam a chegar. É desta época que recordo as minhas primeiras  noções do ambiente que me cercava.
O mundo que estava ao meu alcance não era muito vasto, terminava nas cercas do meu quintal, mas me permitiu as primeiras interações com este planeta. Naquelas tardes de verão tão silenciosas, eu ficava observando as formigas do meu quintal, na sua intensa e variada atividade, e imaginava se subindo no poste de ferro que havia na calçada eu poderia avistar o tal Rio de Janeiro de que tanto falavam. De vez em quando, um DC-3 passava bem sobre a minha casa, trem de pouso embaixo, a caminho da cabeceira do aeroporto. E eu o acompanhava com os olhos até que ele saisse da minha vista.
As notícias chegavam durante o dia pelo rádio, nas edições do Repórter Esso,  onde, após uma musiquinha característica, entrava um locutor de voz exaltada, fazendo parecer que só falava sobre coisas urgentes. E eu ficava brincando e sonhando, até sentir o cheiro familiar do café da tarde e dos bolinhos de chuva que minha mãe fazia às vezes para acompanhar. Mas, em lugar dos bolinhos, cabia até uma boa fatia de pão d'água (hoje chamam francês) com schmier de uva, morango ou goiaba.

O presente que eu nunca ganhei: o Poliopticon, da DF Vasconcelos, era um kit que permitia montar microscópio, luneta e binóculos.

E à noite, meu pai chegava do trabalho trazendo o exemplar diário da Folha da Tarde, o seu tablóide vespertino preferido. Ele sentava num canto da cozinha e então lia para minha mãe as principais notícias do dia, enquanto ela preparava o jantar, que era servido habitualmente  lá pelas 20:30. Meu pai era o nosso "ancora"  particular, comentarista e analista, num telejornal ao vivo, a cores e em 3D! E a cozinha era seu estúdio. Se fosse no inverno, era o melhor lugar da casa, o único aquecido.
Naquela época não existiam:
Aerosol
Aparelhos transistorizados
Astronautas (a não ser nas histórias em quadrinhos)
Calculadoras eletrônicas
Canetas esferográficas
Carros nacionais
Cartões magnéticos
Copiadoras Xerox
Fitas cassete (Ainda existem?)
CDs e DVDs
Garrafas de plástico
Jatos de transporte
Ligações DDD-DDI  (Até o  telefone era um aparelho raro).
Microcomputadores : Os raros computadores existentes no mundo necessitavam um prédio inteiro para conter seus componentes e eram chamados de cérebros eletrônicos, mas eram conhecidos por poucos. Só alguns anos mais tarde começaram a aparecer com o nome de computadores, mas nas histórias em quadrinhos de terror (era em tais revistas que apareciam as histórias de ficção científica, denominação ainda inexistente).
Relógios eletrônicos
Rock and Roll
Satélites artificiais
Som estéreo
Tecnologia laser
Televisão
Transplantes de órgãos

Naquela época...
A coisa mais parecida com um aerosol que havia era a chamada “máquina de flit”, uma bomba manual de êmbolo que ejetava um fino jato de insecticida (a marca mais popular era Flit, daí o nome. Depois surgiu a marca Detefon).
Os rádios, única tecnologia eletrônica que havia no lar (não em todos) utilizavam válvulas, pois ainda não havia semicondutores na vida das pessoas comuns. A gente ligava e aguardava um tempo até as válvulas acenderem, aquecerem e então o aparelho começava a falar.

Sonho de consumo dos jovens: uma "Rádio-Victrola" de mesa com toca-discos automático de 78 rpm já daria para animar as reuniões-dançantes no fim de semana, depois de arredar os móveis da sala.

Para se fazer uma ligação para outra cidade, quem não tinha telefone próprio (a maioria, pois o número de linha instaladas era muito baixo) tinha que ir até uma central telefônica e aguardar até ser chamado para uma das cabines, onde recebia a conexão já feita.
Depois, pagava uma boa grana pela ligação.
Nada havia saído da Terra e permanecido no espaço. Astronautas, só Flash Gordon e Buck Rogers. Falava-se na possibilidade de viajar à Lua e em colocar um satélite artificial em órbita, mas eu me perguntava para que.

 Viagem à Lua? Só em anúncio de relógio...

As únicas calculadoras eram grandes e pesadas, dotadas de manivelas, usadas pelas casas comerciais mais bem estabelecidas, e mostravam o resultado em um mostrador tipo odômetro. Algumas eram ainda maiores e elétricas, e imprimiam os passos da operação em uma fita de papel. O bodegueiro árabe da venda da esquina fazia as contas em um papel de embrulho, com um lápis de traço grosso.

Canetas-tinteiro como a Esterbrook e a famosa Parker 51 eram o que havia de melhor no ramo da escrita, mas não estavam ao alcance de qualquer um.

As crianças em geral usavam lápis na escola. Só em casa as anotações eram passadas a limpo, com a caneta-tinteiro do pai, se não tivesse a sua própria (como era o meu caso). As canetas-tinteiro levadas para a escola, geralmente por ocasião das provas, eram uma constante fonte de problemas, como vazamentos, entupimentos, dedos e cadernos manchados, falta de tinta e guerras de esguichos (com consequências fatais para os uniformes escolares). Se fossem levadas em aviões, ou mesmo em viagens terrestres para locais serranos, o vazamento era certo, devido às variações da pressão atmosférica.
Os carros eram privilégio de poucos e eram todos importados: Chevrolets, Fords, Buicks, Cadillacs e Pontiacs para os mais ricos e Studebakers, Austins, Prefects e Citroens para os menos dotados. O contraste entre aqueles e os últimos era gritante. Os Citroens e Austins pretos não eram muito fascinantes, mas eram a única opção possível para muita gente.


Os Austin ingleses, sempre pretos (como a maioria dos carros) não eram muito atraentes. Já o Ford 49 era o meu preferido. Lindo!
Os cartões magnéticos de crédito ou bancários, nem nos filmes de ficção científica eram previstos.
As únicas cópias eram as chamadas popularmente de fotocópias (oficialmente cópias heliográficas), caras, de baixa qualidade, pouco difundidas e de pouca aceitação. Geralmente, tirava-se a segunda via dos documentos em cartórios.
Os gravadores de fitas eram aparelhos praticamente profissionais. Só no final da década surgiram os aparelhos populares, assim mesmo raros e importados.
A televisão só chegou nos pampas em dezembro de 1959, quando começaram as transmissões da TV Piratini, dos Diários Associados. E a programação diária só começava lá pelas 4 ou 5 horas da tarde!
O plástico, frágil e rígido, só era mesmo usado em brinquedos, e era chamado "matéria plástica".
Os jatos de transporte só surgiram no Brasil no final da década de 50, quando a VARIG adquiriu os Caravelle franceses e mais tarde, os primeiros Boeing 707.

PANAIR e VARIG, além da REAL AEROVIAS, disputavam passageiros para os seus luxuosos Lockheed Constellation. Depois, a VARIG pularia na frente, trazendo o jato francês Caravelle.

Um dia, entrei nas páginas de um gibi, peguei uma máquina do tempo e regulei o mostrador para o ano 2010! Ih! Será que ainda ia ter mundo? Diziam que o mundo já acabou uma vez em água, com o dilúvio, e que agora, iria acabar em fogo, e o ano fatídico seria 1999! Será que eu iria encontrar ainda alguma coisa, depois do Juízo Final?
Que nada! A máquina não era das melhores, viagem foi meio demorada, durou mais de 50 anos, mas cheguei e... quanta coisa diferente! Todos tem telefone, até mesmo portátil,  e como são pequeninhos! Tem tantos carros como eu nunca vi, nem cabem nas ruas! Assim não vale! Eu queria ter carro era em 1950, quando as ruas eram vazias, só para os sortudos que tinham carro! E estas máquinas de escrever com tela de TV, onde aparecem maravilhas! A gente pode até falar e ver com quem está falando, ou fazer compras sem sair de casa! Isto nem eu imaginava! Não precisa mais cortar lenha para por no fogão e fazer o almoço! E tem até comida já pronta no supermercado!
Em termos de sonhos alguma decepção! Ainda nem chegamos a Marte! Não tem naves viajando para todos os planetas, nem robôs inteligentes trabalhando nas casas e falando com a gente! Ainda não fazem teletransporte! Ainda não acabamos com as guerras!
Em termos de conforto, a vida de hoje nos oferece muito mais. Em compensação (como diz o JCL, não tem almoço grátis) nunca vi tanta gente estressada, nem tanta devastação na natureza! O espaço em torno da Terra está atulhado de lixo espacial! As calotas polares são cada vez menores, para desespero dos pobres ursos! Tem uma área do Oceano Pacífico à oeste do Havaí que se transformou no maior lixão aquático do mundo, uma tristeza!
E agora? Voltando ao passado não dá para tentar mudar o curso dos eventos, pois todas as vezes que eu vi tentarem isso nos livros e filmes, o tiro saiu pela culatra!
Talvez, se eu der um pulo até 2130...
Amigos, acho que este blog vai dar um tempo...Abraços!

(Todas as figuras apresentadas nesta matéria foram digitalizadas pelo autor,  a partir de anúncios publicados em exemplares da revista Seleções do Reader's Digest de sua coleção particular.)

quinta-feira, 8 de julho de 2010

UMA FAÇANHA ESQUECIDA

Eu selecionei para dar início a este blog um assunto que me chamou bastante a atenção quando criança. Na época, eu percebia a admiração expressa pelo meu pai e por outras pessoas, em relação aos protagonistas do fato. Mas, só alguns anos mais tarde eu pude entender melhor a extensão da façanha daquelas pessoas simples, pobres e corajosas.
No longínquo ano de 1951, um dos fatos que mais me impressionou foi a chegada em Porto Alegre da jangada comandada por Mestre Jerônimo. Ele e mais quatro tripulantes, simples pescadores, saíram do Ceará e viajaram pela costa brasileira até a capital gaúcha ! Tudo isto sobre meia dúzia de troncos equipados com uma vela !
Pelo que sei, eles realizaram esta jornada para chamar a atenção sobre as duras condições de vida dos jangadeiros, entregues à sua própria sorte, enfrentando riscos e dificuldades, sem nenhum auxílio externo. Primeiro passaram pelo Rio, onde ganharam o apoio de alguns órgãos de imprensa, como o jornal O Globo e a revista O Cruzeiro, e depois, rumaram para o sul, entraram pelas águas mansas da Lagoa dos Patos, depois nas águas barrentas do Guaíba e chegaram à Porto Alegre, onde foram recebidos como heróis e com muita festa pelo povo gaúcho.
Hoje em dia, parece que pouca gente sabe deste fato e é difícil até achar referências ao feito ou aos seus protagonistas. Agradeço a quem puder acrescentar maiores informações sobre esses jangadeiros, dos quais eu não sei nem os nomes completos. Só me lembro de Mestre Jerônimo e de um outro de apelido Tatá. Soube vagamente apenas que um deles, de apelido Jacaré, teria falecido durante a viagem. A viagem marítima deles terminou ali, pois se eu me lembro, eles ganharam roupas novas e passagens para voltar ao Ceará e deixaram em Porto Alegre suas roupas usadas na viagem e a jangada.



A jangada, cercada de barcos locais, se prepara para atracar, o que fez a menos de duas quadras do atual estádio Beira-Rio, na Praia de Belas. A jangada, assim como as roupas e chapéus dos heróicos jangadeiros foram vistas por mim há mais de 30 anos, no subsolo do Museu Julio de Castilhos, em Porto Alegre.(foto: popa.com.br)