Hoje, um ilustre
cidadão brasileiro, preso há algumas semanas pela Polícia Federal (PF) por
contravenção, deverá prestar depoimento diante de uma Comissão
Parlamentar de Inquérito (CPI).
Não vi nada, não ouvi nada, não falo nada!
Ou melhor, segundo a
imprensa já adiantou, ficará calado, “para não produzir provas
contra si mesmo”!
A lei brasileira prevê
este direito aos acusados: se um réu achar que qualquer coisa que
ele diga em resposta às perguntas dos inquisidores irá
incrimina-lo, tem o direito de ficar calado!
E eu, na minha
estupidez de leigo, me pergunto se só este silêncio já não
serviria como prova de culpa...
Pois se alguém não
pode falar sob juramento, pois o que disser de verdade o irá
incriminar, então me parece óbvio que tem culpa!
Mas, já desisti há
muito tempo de tentar entender a justiça deste país, ou os
propósitos de quem cria as leis!
Aliás, o advogado do
réu é nada menos do que um ex-ministro da justiça, o que mostra o
quanto o tal cidadão é bem aceito nas altas rodas!
O réu em questão foi
preso por contravenção, no caso exploração ilegal de jogos de
azar. Mas, o motivo de sua presença diante de uma CPI são as
acusações gravíssimas contra terceiros, que podem vir à tona com a
apuração do seu modus operandi.
Pois, segundo existem
muitos indícios, o tal cidadão mantinha íntimo relacionamento com
inúmeros parlamentares e pessoas ocupando cargos públicos executivos, aos
quais teria corrompido mediante prestação de favores e pagamento de
propinas! Uma empresa da qual o contraventor é sócio teria servido de ponte para ligações promíscuas entre diversos figurões e a contravenção. A lista proposta inclui até governadores de estado!
E, segundo já foi
revelado, o distinto cavalheiro, previdentemente, costumava gravar
secretamente seus encontros com os distintos figurões de quem
comprava a cooperação, o que daria uma expectativa de grandes
revelações ao longo das investigações.
Unidos pelo mesmo ideal...
Pelo menos um nobre
senador, tido como um baluarte da moralidade, já foi mostrado
publicamente em gravações telefônicas feitas secretamente pela PF,
combinando atividades nada elogiáveis com o contraventor!
Outro já declarou que devolveu as benesses que recebeu do ilustre cidadão!
Por este motivo, muita
gente importante está vivendo com um
comprimido de Isordil debaixo da língua, esperando que o tempo
resolva a situação, antes que seu benfeitor dê com a língua nos dentes!
No Brasil, é costume
se enterrar um escândalo com outro, desviando o foco do anterior!
Difícil é saber se o
número dos que temem a apuração não é superior ao dos que querem
esclarecer os fatos!
Como disse um
parlamentar: “se esta CPI não apurar nada de relevante, então
teremos que fazer outra CPI para investigar esta!”
Mas, como toda a
atividade que envolve parlamentares, os principais objetivos são
sempre políticos. Os que querem a apuração, na realidade o fazem
pela possibilidade de que os fatos incriminem seus adversários
políticos, não por uma súbita sede de justiça ou de moralidade!
À princípio, a relação dos depoentes já deixou de fora algumas figuras contra as quais haviam evidências claras de envolvimento com o presidente da empresa da qual o cidadão era sócio!
Seria acreditar em
Papai Noel, esperar que nosso legislativo tenha tantos princípios,
depois de tantas e tantas indicações que já nos deram de falta de
princípios!
Mas, como a alegria do
palhaço é ver o circo pegar fogo, estou dando gasolina de graça,
mesmo sabendo que o sistema anti-incêndio dispõe de muitos
bombeiros voluntários, que, com bastante água, podem fazer esta CPI
virar mais uma cascata!
